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Sociedade

06 Julho 2017

Já há aldeias a trocar eucaliptos por espécies autóctones para se defenderem dos fogos

Quem seguirá o exemplo de Ferraria de São João e de Casal de São Simão?

Moradores das aldeias Ferraria de São João e Casal de São Simão, afectadas pelo fogo do mês passado em Pedrógão Grande, que vitimou 64 pessoas e terá provocados prejuízos de 500 milhões de euros, estão cansados de promessas e discursos. Para proteger os seus lares, vão arrancar eucaliptos e plantar espécies de árvores portuguesas resistentes ao fogo.

Em dez anos, Casal de São Simão, a única aldeia histórica de xisto no distrito de Leiria, foi ameaçada três vezes por incêndios no eucaliptal que a cerca. Passado o fogo, os proprietários com terrenos à volta da aldeia correm a replantar as árvores.

Desta vez, porém, se tudo correr como pretende a associação local de moradores, as coisas podem vir a ser diferentes e, em vez de eucaliptos e pinheiros, a floresta original, como existia no tempo dos Descobrimentos, pode voltar a albergar vida e proteger cursos de água e servir como protecção contra o fogo.

Os moradores desta e de outra aldeia vizinha abandonaram as lógicas exculpantes do fogo posto, da necessidade de saber se foi um raio ou se foi um fósforo, e enfrentaram o verdadeiro problema: a monocultura de eucalipto - e pinheiro - e a desorganização florestal que colocam, ano após ano, vidas humanas e propriedade privada em risco.

A ideia de plantar uma zona de protecção à volta das habitações, com castanheiros, carvalhos, azinheiras e outras espécie resistentes ao fogo e que fazem parte do ecossistema original de Portugal começou na aldeia vizinha de Ferraria de São João, que já fez parte do concelho de Figueiró dos Vinhos, mas que, agora, integra o território de Penela.

Naquela aldeia do xisto, o objectivo é criar uma área, com uma largura de 100 a 500 metros, livre de eucaliptos e povoada com espécies vegetais autóctones, mais verdes, de combustão mais lenta e benéficas para o ambiente, gestão da água e ecossistemas. Tudo o que o eucalipto não é.

Os moradores baptizaram essa linha como Zona de Protecção da Aldeia (ZPA). “Quero que os meus filhos possam continuar a viver numa aldeia onde se pode estar de porta aberta e onde possam trepar às árvores... e isso foi posto em causa no dia 17. Eu e a minha mulher tivemos de pensar seriamente se queríamos cá continuar a viver. Resolvemos, pelo menos, tentar mudar. Se não conseguir, serei o primeiro a ir procurar um outro sítio para os meus filhos crescerem. Eles eram felizes aqui, antes do fogo, e quero que eles o continuem a ser”, diz Pedro Pedrosa.

Dono de um pequeno eco-turismo, mudou-se, com a mulher, Sofia, para Ferraria de São João há oito anos. Recuperou casas antigas e começou a hospedar gente que vinha em busca de paz e sossego, na serra. Com o tempo, a paisagem em volta da aldeia transformou-se.

A pouca vegetação autóctone e pinheiro alpino que restava foi arrancada por buldozzers para dar lugar a plantações de eucalipto. Após várias ameaças, o fogo veio bater-lhes à porta. Foi na noite do dia 17 para 18, já depois de saberem das várias mortes no concelho vizinho de Pedrógão Grande.

No meio da aflição e do desespero, Ferraria de São João ainda teve alguma sorte. Uma faixa de sobreiral com cerca de 50 metros de largura, que tinha resistido à febre da eucaliptização, segurou as chamas num dos lados da aldeia.

Assistidos apenas por dois carros de bombeiros, os habitantes respiraram de alívio quando, por volta da 1:30 horas da manhã, as chamas se apagaram no sobreiral, mas, passado pouco tempo, voltaram a ficar com o coração nas mãos, quando os eucaliptos que cercavam a aldeia continuaram a arder até se formar um anel de fogo à volta das casas, projectando material incandescente para as ruas da localidade.

A casa e alojamento turístico rural de Pedro Pedrosa foram salvos por mangueiras de jardim e baldes de água estrategicamente despejados. "O fogo não chegou à aldeia por causa dos sobreiros, mas abraçou-a.”

Nas aldeias de Abrunheira e Cercal, ali ao lado, já no concelho de Figueiró, não havia castanheiros, sobreiros ou azinheiras para proteger as casas e as chamam lamberam as paredes e pintaram-nas de negro e consumiram até a relva dos jardins.

“Ou virávamos as costas e íamos viver para outro sítio ou fazíamos algo”
Com o raiar do dia e o levantar do fumo, o cenário era apocalíptico. A aldeia tinha sobrevivido mas, à volta, só havia nuances monocromáticas de cinzento e negro. Com o coração ainda acelerado do pânico e da aflição das horas a lutar contra as chamas para alguns dos moradores só havia dois caminhos.

“Ou virávamos as costas e íamos viver para outro sítio ou fazíamos algo para mudar a situação. Temos consciência de que, se ficamos à espera de ajuda das autoridades, irá demorar demasiado tempo", diz Pedro Pedrosa.

Juntamente com alguns moradores resolveu alargar o debate a todas as pessoas da aldeia. No fim-de-semana seguinte, a sala comunitária encheu-se e os moradores votaram por unanimidade a criação da ZPA.

Temos de entender que essas árvores são uma fonte de rendimento e a questão do dinheiro pesa sempre mais do que um cenário hipotético, que os proprietários entendiam que jamais iria acontecer. ” Na reunião, conseguiu-se uma unanimidade para arrancar os eucaliptos e substituí-los por espécies mais seguras.

“Tínhamos o exemplo do nosso sobreiral, que contínua verde e que auto-extinguiu o fogo. Não foram precisos estudos, teorias, especialistas... estava à frente dos olhos." A primeira tarefa é a de criar um cadastro de todas as propriedades em redor da aldeia. E é um dos trabalhos mais difíceis.

"Tenho um pouco mais de um hectare de terreno que constitui juntando 11 artigos prediais. Vai ser uma tarefa complicada catalogar todos estes minifúndios", admite Pedro Pedrosa.

Seguir o exemplo da Ferraria
Com os olhos fixos nas pedras milenares das pequenas casas da pequena aldeia candidata à 7 Maravilhas de Portugal - Aldeia Rural, Aníbal Quinta recorda que foi o primeiro, há 30 anos, a chegar a Casal de São Simão, no concelho de Figueiró dos Vinhos, quando só ali havia ruínas abandonadas.

Queria recuperar ali uma casa e criar um refúgio. A mulher ainda o tentou demover, mas Aníbal tinha a ideia funda na sua alma. Começou a passar todos os seus fins-de-semana a reerguer paredes derrubadas, a cortar silvados, a colocar rebocos e a construir telhados.

As duas primeiras casas da aldeia são suas. Recuperou- as com o suor do rosto. E está cansado de ver o fogo, esse ladrão de vidas e de bens, rondar-lhe a soleira da porta. No dia 18, com o número de mortos a chegar aos 60, ali ao lado em Pedrógão Grande, voltou a viver essa aflição.

É certo que os eucaliptos não se incendeiam em combustão espontânea, mas, qualquer pessoa com o mínimo de bom-senso percebe que, cobertos de óleos inflamáveis e plantados sem ordem em todos os cantos e recantos da serra, esta espécie vegetal, tal como o pinheiro, é um verdadeiro barril de pólvora em qualquer incêndio.

Primeiro, antes de plantar as árvores resistentes ao fogo que há 2100 anos, os romanos encontraram na Ibéria, será preciso falar com os proprietários ausentes, com os moradores que vão esporadicamente à aldeia e com as várias entidades responsáveis.

"Queremos ter na reunião que vamos fazer no dia 23 para debater o assunto, um representante da Câmara, um representante da Junta de Freguesia, o comandante dos bombeiros, engenheiros florestais para, todos juntos, criarmos um ambiente de boas vontades e profissionalismo, neste grande desafio de criar uma aldeia mais segura”, diz Aníbal Quinta, que também é presidente da Direcção da Associação Refúgios de Pedra.

O presidente da Junta da Aguda, Carlos Simões, um admirador da medida e da aldeia de São Simão, garantiu já a sua presença e apoio. "É um bom exemplo e, embora seja de difícil concretização noutras aldeias da freguesia e do concelho, gostaria de o ver adoptado noutros sítios."

Os responsáveis são cautelosos, uma vez que o eucalipto pode ser ladrão de vidas e bens, mas também é o único ganha-pão numa região onde não há empregos.

 

“Árvores-bombeiras” nacionais
- Azinheira (Quercus ilex) são árvores que chegam a medir até 10 metros de altura.  
- Carvalho Português (cerquinho - Quercus faginea) está reduzido a pequenos redutos na Serra da Arrábida, Serra de Montejunto, Serra de Sintra, Serra de Aire e Candeeiros, Sicó-Alvaiázere


- Carvalho Negral (Quercus Pyrenaica) pode atingir, no estado adulto, em povoamento florestal e em condições favoráveis, 25 a 30 metros de altura.
- Carvalho-roble (carvalho-alvarinho - Quercus robur) foi, no passado, a árvore dominante nas florestas portuguesas e tem um tempo de vida entre 500 e mil anos
- Castanheiro (Castanea sativa) muito abundante no interior norte e centro de Portugal, formou, juntamente com o trigo, cevada e centeio, a base da alimentação

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Jacinto Silva Duro
Redacção Jacinto Silva Duro jacinto.duro@jornaldeleiria.pt






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