Saúde

Hope Care, um hospital remoto com 3.500 doentes

31 dez 2023 08:00

Foi a primeira empresa portuguesa de saúde digital a combinar serviços, produtos e plataformas tecnológicas de ponta, que permitem prestar cuidados aos doentes de forma remota

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José Paulo Carvalho, fundador e CEO da Hope Care
Ricardo Graça
Daniela Franco Sousa

Com sede no Parque Tecnológico de Óbidos, a Hope Care é exemplo de sucesso na área das novas tecnologias aplicadas na saúde, combinando serviços, produtos e plataformas tecnológicas de ponta, que permitem prestar cuidados aos doentes de forma remota. Impôs-se no mercado nacional, onde trabalha com 17 hospitais, públicos e privados, e está empenhada em crescer no mercado internacional, onde já desenvolve vários projectos.

José Paulo Carvalho, fundador e CEO da Hope Care, recorda que a empresa nasceu em 2012, resultado do conceito que apresentou na sua tese final de curso, num MBA que concluíra no ano anterior. Inicialmente, a Hope Care funcionou em Lisboa, mas em 2014 optou por se instalar no Óbidos Parque, onde se mantém. “Olhámos para a região Centro como potencial, porque nos parecia favorecida em termos de financiamentos. Tínhamos projectos a nível nacional e esta zona tem uma localização central. Depois, também estávamos a olhar para aquilo que é o Politécnico de Leiria, onde podíamos captar engenharia e recursos humanos”, salienta o CEO. “E a aposta correu bem”, avalia o empresário.

Chama-se HC Alert o produto pelo qual se tem distinguido a Hope Care. Trata-se de uma plataforma de telemonitorização de doentes crónicos. Foi desenvolvido um aplicativo de saúde móvel, que se pode instalar num telemóvel Android e IOS. A esse aplicativo a empresa conecta diversos equipamentos médicos, como os glucómetros, tensiómetros, balanças, etc., todo um conjunto de equipamentos que lhe permitem recolher informação, de forma remota, a partir da casa do doente.

A partir da informação que chega à base de dados da Hope Care, esta avalia a condição e o risco que existe para cada doente, permitindo que o médico ou enfermeiro actue junto da pessoa que está a ser monitorizada. “Permite-nos antecipar os eventos de agudização da doença e, nesta fase precoce, o médico pode intervir em tempo real, mudar a medicação e, com isso, evitar a urgência hospitalar”, exemplifica José Paulo Carvalho.

“Além de aumentar a qualidade de vida do doente, melhoramos a produtividade dos hospitais, que deixam de ter muitos destes pacientes nas urgências”, aponta o CEO. A Covid-19 e o confinamento voltaram a atenção do público para as potencialidades deste produto, que conduziu à expansão da Hope Care.

Hoje, uma equipa de dez colaboradores, acrescida de outros dez subcontratados, dinamiza esta empresa, que se tornou no “maior hospital de Portugal, com 3.500 doentes”, refere o empresário.

Uma certificação que abre portas

Existem, no entanto, alguns desafios que se colocam a quem inova no nosso País, sobretudo no tipo de actividade desenvolvida pela Hope Care, reconhece. “Em Portugal, não estamos habituados a passar daquilo que é inovação para a produção. Na indústria de moldes isso acontece, mas, a nível nacional, nós não temos assim tanta indústria onde possamos dizer que conceitos de inovação vão ser transformados em produção. Não somos um País com experiência na produção de equipamentos e não existe mesmo a experiência em desenvolver software na perspectiva de ser posteriormente certificado como equipamento médico. Nessa medida, o que fazemos é completamente novo”, contextualiza José Paulo Carvalho.

O empresário recorda que, em 2017, surgiu uma directiva europeia que passou a obrigar todo o universo da saúde digital, todo o software desenvolvido nesta área, a ser certificado como equipamento médico.“Isso levou a uma transformação no mercado europeu. Significa que a marcação destes produtos é obrigatória e que para se actuar no mercado europeu tem de se estar registado na Autoridade do Medicamento. É uma revolução que implica tudo o que nós desenvolvemos até hoje. Toma muito tempo, porque implica desenvolvimento de estudos clínicos, desenvolvimento de testes de mercado, de segurança, etc.”, especifica o CEO.

Felizmente, congratula-se o responsável, algo mudou recentemente para a Hope Care. “Recebemos em Outubro um certificado que nos confere a classe 2 B. Significa que temos um software de acompanhamento de doentes de alto risco, que permite acompanhá-los em casa, e que tudo aquilo que fazemos com o nosso equipamento médico é certificado. Com isso, estamos no topo da cadeia de valor daquilo que é a indústria. Somos a segunda empresa na Europa a conseguir esta certificação”, frisa José Paulo Carvalho. A primeira é inglesa.

Atingir este “patamar de excelência” permite à Hope Care operar no mercado alemão- já está a trabalhar nesse sentido – e crescer no mercado austríaco e suíço, onde já desenvolve projectos. “Trabalhar no Norte da Europa é complementarmente diferente em termos de valor e de exportações”, realça o empresário.

A certificação agora obtida também favorece a captação de recursos humanos qualificados, explica o responsável. Se já existia dificuldade em obter recursos humanos qualificados na área da engenharia informática, depois da Covid-19, com o aumento do trabalho remoto, qualquer engenheiro, em trabalho à distância, pode colaborar com os Estados Unidos ou com a Alemanha, sendo pago com os vencimentos praticados nestes países.

“Estamos a dar a volta à questão, exactamente porque estamos a caminhar para um nível de excelência e a empresa está tornar-se atractiva para este tipo de engenharia madura. Começamos a captar recursos de outros países, o que vai mudar a fibra da Hope Care nos próximos tempos”, antevê o CEO.

“Mas estamos a competir injustamente com países que têm maior capacidade para captar estas pessoas. As empresas portuguesas deviam ser ajudadas nesse sentido pelas entidades”, defende.

Quanto ao financiamento, que costuma ser um obstáculo para as organizações que pretendem inovar, parece ser uma questão com soluções ao dispor. “O nosso mercado começa a estar preparado para aquilo que é captação de investimento de venture capital, investimento de capital de risco para os desenvolvimentos de I&D, sobretudo para sectores do Medteck e do Digital Health”, observa o empresário. E, na perspectiva do fundador da Hope Care, este é um tipo de financiamento mais interessante do que aquele que é disponibilizado por outras estruturas, como o PT 2030, por exemplo, onde existem contrapartidas e a demora na aprovação dos projectos nem sempre se coaduna com a rapidez do mercado.

Além da certificação, uma outra novidade vem potenciar o prestígio desta empresa, partilha José Paulo Carvalho. Em Setembro, lançou o seu primeiro artigo científico, publicado no Journal of Medicine, onde a Hope Care analisa aquilo que deverá ser o futuro, que passa por conseguir estimar, através da telemonitorização, predizer quanto tempo demorará um indivíduo a ser internado, se não alterar as condições de saúde que lhe foram remotamente detectadas, refere o CEO.