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Há Música na Cidade porque “a rua somos nós todos”

3 out 2019 00:00

O festival que é a banda sonora de Leiria visto por cinco veteranos das primeiras cinco edições.

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Liberdade, é a palavra que Clara Leão escolhe para definir o festival Há Música na Cidade, organizado pelo JORNAL DE LEIRIA e com co-organização da Câmara de Leiria, que se realiza, pela sexta vez, já depois de amanhã.

“O grande segredo é o facto de ser maioritariamente na rua, de o público poder ser qualquer pessoa”, aponta a coreógrafa, que participou em várias edições. “A rua somos nós todos”, afirma. “Permite que absolutamente toda a gente veja tudo, o que dá uma sensação de liberdade extraordinária”.

Num território livre, também a criatividade ganha asas. Há naturalidade, improviso, verdade. Clara Leão recorda, em especial, a performance em que se juntou com António Cova, Carlos Martins e Pedro Miguel, em 2013, no Palácio dos Ataídes, executada com grande dose de criação espontânea.

“Fica tudo muito em pânico e é, eventualmente, desse pânico que nasce uma acuidade enorme. As pessoas ficam hiperatentas e essa é uma componente muito importante”.

No próximo sábado, 5 de Outubro, Clara Leão volta a cruzar diferentes linguagens artísticas e aproveita o ambiente sem amarras do Há Música para imaginar um objecto único, irrepetível, que só faz sentido no lugar em que é apresentado. Com Pedro Marques, baterista dos First Breath After Coma, e outros músicos, as alunas da escola de dança dão corpo a uma reflexão sobre o tempo.

“Não no sentido do envelhecimento, mas da rapidez com que o tempo passa, que nos deixa a todos com a sensação de que não há tempo para as coisas que consideramos essenciais”.

Uma espécie de “declaração” ou “leitura do real”, no exterior das antigas instalações do JORNAL DE LEIRIA, na Rua Comandante João Belo, a envolver também a comunidade: está prevista a projecção de texto, a partir das respostas à pergunta “O que mais falta numa vida feita a correr?”

Surma antes de ser Surma. Antes da metamorfose Surma e muito antes de se apresentar ao País na edição 2019 do Festival da Canção, Débora Umbelino estreou-se no Há Música na Cidade com o colectivo Backwater And The Screaming Fantasy, do qual faziam parte, também, dois dos actuais membros dos Whales. Eram os primeiros passos ao vivo a tocar temas originais, depois de vários concertos baseados em covers, com The Rumbles.

Revelados através do concurso Zus! - Zone Under Sounds, criado pela associação de acção cultural Fade In para descobrir novos talentos nas escolas do concelho de Leiria, os Backwater And The Screaming Fantasy tocaram no Há Música na Cidade nos anos de 2012 e 2013. O que lhes permitiu mostrarem-se junto de um público mais vasto, a nível local.

Em 2015, Débora Umbelino apresentou-se já a solo, enquanto Surma. No regresso do evento, Surma regressa também: no sábado, vai actuar na varanda do número 26 da Rua João de Deus. “Em cada concerto tento mudar alguma coisa e em Leiria é óbvio que vou fazer algo diferente daquilo que as pessoas estão habituadas a ouvir”, explica. “Vai ser bonito, emocionante”.

A menina que Portugal conhece como a voz de Pugna diz sentir-se em casa no Há Música e acredita que o festival “é uma inspiração” e “um meio de motivação” para as gerações que se seguem. Entre os projectos mais recentes, destaca Lost Lake, de Adriana Lisboa, que faz dupla com Gil Jerónimo. Quanto aos Backwater, representam o princípio de um percurso criativo que está longe de terminar. “Mudámos muito enquanto artistas, estamos muito mais maduros, com uma visão muito específica daquilo que queremos”.

Um Marciano recordista. Depois de seis concertos em diferentes anos, “com vários projectos, em fases distintas”, mas, sempre, “com muito amor”, Marciano é dos músicos com maior número de participações no Há Música, onde estreou, por exemplo, o formato mARCIANO, que em 2019 está nos correios antigos, na Avenida dos Combatentes da Grande Guerra (algumas horas antes de pisar o palco com os Índios da Meia Praia, no Pátio do Barão).

O melhor do evento? “Elevar o nível cultural da cidade, promover a parte histórica da cidade, onde se situa muito comércio tradicional, abafado pelos centros comerciais, e fazer um dia completamente memorável, cheio de festa e cheio de amigos. Chama-se a isto vida pois a música con(vida). Provavelmente somos a zona do país com mais músicos por metro quadrado e de diferentes quadrantes e muitos leirienses não têm essa noção”, afirma. “É muito salutar mostrar projectos de vários géneros. Ouvir fado, filarmónicas, pop, rock, indie, electrónica, escolas de música e até projectos com contornos parodiantes, tudo no mesmo dia, é incrível. É assim que se quebram tabus”.

Para um Há Música ainda melhor, Marciano deixa a sugestão: “Sonoridades mais duras de ouvido. Dou o exemplo do punk, do metal e da música experimental. Se é para mostrar um alargado espectro, que seja o mais completo possível”.

Identidade e comunidade. O musicólogo Paulo Lameiro, actualmente coordenador do grupo executivo que lidera a candidatura de Leiria a capital europeia da cultura, está desde a primeira hora com o Há Música na Cidade, quase sempre a dirigir ensembles constituídos por pais e filhos, mas também, noutros momentos, mais raros, como solista, o que sucedeu, por exemplo, no Palácio dos Ataídes, em 2012, quando vestiu o fato de cantor lírico, acompanhado pela pianista Yumiko Ishizuka. Elogia o projecto pelo carácter comunitário, de envolvimento e voluntariado, em que “as pessoas participam porque sentem a cidade como sua”, ou seja, na lógica do que “é hoje central nas práticas culturais, a proximidade com a comunidade”.

Não surpreende, portanto, que aplauda o fim de um silêncio de quatro anos. “Fiz um esforço muito grande, enquanto responsável executivo pela candidatura a capital europeia da cultura, para que o Há Música fosse reactivado. E aquilo que me motivou foi a consciência que tenho da sua importância. É um evento que materializa a cidade numa relação com aquilo que ela é musicalmente”.

No menu de degustação que é cada programa do Há Música, Paulo Lameiro elogia a progressiva abertura do alinhamento, de um início mais focado nas linguagens de conservatório para a oferta actual, muito mais ampla, que mistura a música erudita com a música popular. “Tem vindo a alargar-se e tem vindo a crescer para gramáticas musicais mais extremas e com uma paleta muito mais diversificada”.

Outra nota de destaque, segundo Paulo Lameiro, tem a ver com o cenário em que ocorrem os concertos: ao ar livre, nos cantos e recantos do ambiente urbano, para onde não se olha com atenção no dia a dia, com o som a gravar novos afectos na memória e no coração de quem ouve.

“Uma coisa é ver a Orquestra Filarmonia das Beiras no Teatro José Lúcio da Silva, outra coisa é vê-la na Fonte Luminosa. Há uma metamorfose, aquele espaço transforma-se para nós. Nunca mais os antigos correios foram só os antigos correios”, afirma, numa referência ao concerto da banda The Allstar Project, de Leiria, em 2015, num terraço da Avenida dos Combatentes da Grande Guerra.

Descobrir a cidade. Tal como a SAMP, através de Paulo Lameiro e de muitos outros, sejam professores ou alunos, também o Orfeão de Leiria faz parte da história do Há Música desde a edição inaugural. Em 2019, anima a Sé de Leiria, a Igreja da Misericórdia e a Casa da Palmeira, por exemplo, com classes de guitarra clássica, trompete, clarinete, violino, piano, saxofone e trompa, entre outras.

“Orgulha-nos muito que muita escola, muito músico, até com carreiras por esse mundo fora, tenha uma raiz, directa ou indirectamente, nesta casa”, afirma Acácio de Sousa, presidente do Orfeão de Leiria, explicando que à instituição “interessa a cooperação com todas as organizações da região no que toca à promoção da cultura”. E, nesse sentido, existe com o JORNAL DE LEIRIA, que dinamiza o Há Música na Cidade, “uma relação de proximidade”, em especial nos assuntos da música e dança.

Acácio de Sousa lembra que “a música é uma marca cultural fortíssima do concelho”, com “fio condutor” desde a primeira metade do século XX até hoje.

No Há Música, vive-se “um momento de festa assinalável, de qualidade e de incentivo aos jovens artistas”. E, muitas vezes, há “talentos ainda não reconhecidos que aparecem”, ressalva.

Nesta maratona, que “demonstra a grande vitalidade” da região, o presidente do Orfeão destaca o agendamento de espectáculos “em sítios poucos usuais”, o que interpreta como “chamada de atenção” e considera “uma mais-valia” do programa.

No próximo fim-de-semana, a fórmula repete-se: há performances em varandas, jardins, igrejas e em edifícios emblemáticos no imaginário dos leirienses.

As ruas de Leiria voltam a encher-se de sons, desta vez com a colaboração de 1.200 músicos.
 

Sábado em Leiria: 110 concertos, 26 palcos, 1.200 músicos

É já no próximo sábado, 5 de Outubro, em Leiria: o Há Música na Cidade começa às 14:30 horas, com uma arruada pelo centro histórico, a finalizar na Praça Rodrigues Lobo, que junta Farratuga, Marching Band, Sociedade Filarmónica Catarinense e Rotas Soltas. A última proposta está agendada para as 23 horas: First Breath After Coma e Whales no Largo da Sé, em que as duas bandas de Leiria em actuação conjunta mostram reportório criado especificamente para o evento organizado pelo JORNAL DE LEIRIA. No total, são 1.200 músicos e 110 concertos, em 26 palcos. Do ambiente clássico e erudito ao pop rock, do jazz e da electrónica ao fado e aos espectáculos para bebés, com a participação de alunos e professores das principais escolas de música da região, mas, também, de várias gerações de músicos profissionais. O programa inclui concertos em varandas – na Rua Engenheiro Duarte Pacheco com Trio de Circunstância, Daniel Catarino e Churky e na Rua João de Deus com Few Fingers, Lince e Surma – e a performance do violinista Nuno Santos suspenso numa grua na Praça Rodrigues Lobo, depois da actuação da Orquestra de Jazz de Leiria. Outros destaques: a Fonte Luminosa entregue à Orquestra Filarmonia das Beiras, com os solistas José Guilherme e Manuela Moniz, e a Igreja da Misericórdia – Centro de Diálogo Intercultural de Leiria a receber, numa parceria com a associação Fade In, o compositor holandês Jozef van Wissem, cujo instrumento de eleição é o alaúde. A longa lista de protagonistas da sexta edição do Há Música na Cidade inclui o trio César Cardoso, Paulo Santo e Diogo Dias, Country Playground, Me and My Brain, Obaa Sima, Jerónimo, Cateto, Marciano, Krake, Stoneman, Koyaanisqatsi, Horse Head Cutters, Twin Transistors, Lost Lake, Truc, Rua Direita e Índios da Meia Praia, entre muitos outros nomes. Depois das 24 horas, há dj sets no Pátio das Pirâmides da Biblioteca Municipal de Leiria e na Stereogun. O objectivo é o mesmo desde o primeiro dia: vivenciar o centro histórico através da música e revelar o estado da arte em Leiria, numa celebração em que também colaboram alguns músicos de fora.

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