Sociedade

Férias na região: da realeza a grandes nomes da cultura

16 ago 2019 00:00

Do Rei D. Carlos a Zé Pedro, dos Xutos & Pontapés (na foto), passando por Eunice Muñoz ou Ruy de Carvalho, têm sido muitas as personalidades que, ao longo dos tempos, elegem a região de Leiria para as suas férias.

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Paula Sofia Luz

 Se fechar os olhos, Helena Reis ainda consegue sentir a areia molhada a moldar-se entre os dedos gorduchos do irmão Zé Pedro, à sombra da barraca de praia que a família alugava ao dia, na Praia do Pedrógão. Até aos quatro anos aquele era o areal que o guitarrista dos Xutos & Pontapés (desaparecido em 2017) melhor conhecia, muito antes da família comprar uma casa na Praia do Vau, no Algarve.

“Tenho as melhores memórias desses Verões no Pedrógão. Éramos muitos, nós – na altura ainda só quatro irmãos – e os primos”, conta ao Jornal de Leiria a irmã Helena, autora da biografia do músico (Não Sou o Único, 2007). Foi aí que pela primeira vez revelou publicamente alguns relatos desses anos dourados, quando a família passava os verões no Louriçal (Pombal), onde o avô paterno era médico.

No livro, Helena Reis cita o diário da mãe: “no dia 28 de julho de 1957, foi à beira-mar pela primeira vez: gostou imenso da areia, riu-se muito, mas teve muito medo da água”. Rapidamente perderia o medo. “E durante quase toda a sua vida, viverá perto da água. Estão para vir os verões passados na Praia do Pedrógão, Figueira da Foz, Praia da Rocha, Praia do Vau, Dili (Timor) e tantos outros”, acrescenta Helena na biografia do irmão.

“O Zé Pedro adorava a praia”, sublinha agora ao Jornal de Leiria, nostálgica desse tempo em que tudo se resumia a família, festa, dias longos e serões de província. Os avós viviam num casarão, na vila do Louriçal, onde os mais antigos ainda se lembram do Dr. Reis, o médico que andava a cavalo pelas aldeias da freguesia, acompanhado de um cão. Nessa casa (dos avós paternos) “havia sempre um rádio ligado”, além do piano onde a avó Mimi (Maria da Conceição) tocava todos os dias, “e às vezes até nas festas do Louriçal”.

No areal da Praia do Pedrógão a família Reis fazia grandes piqueniques. “A nossa mãe adorava a praia e por isso ficávamos por lá o dia todo. Fazíamos castelos de areia, com muitas conchas e pedrinhas, jogos diversos. E cantávamos muito, sempre. A nossa mãe era muito alegre e punha-nos sempre a cantar”, recorda Helena Reis, que voltou ao Pedrógão mais tarde, algumas vezes já adulta, “para me recordar daqueles tempos fantásticos”.

Os amigos de Miguel Franco na Nazaré
É de memórias (boas e más) que se faz o capítulo da Nazaré na vida da pintora Maria João Franco, filha de Miguel Franco, o actor, encenador e dramaturgo natural de Leiria – cujo nome foi perpetuado num Teatro. No final da década de 50 e princípio da década de 60, a família recebia nas férias de verão um amigo especial: o escritor (e médico) Bernardo Santareno, que ficava alojado na mesma pensão.

Nesses anos dourados várias famílias de Leiria passavam férias na Nazaré, onde os dias eram de boa praia, muita conversa entre os adultos e brincadeira entre os mais novos; e as noites de animação na esplanada da praça ou nos bailes do Casino.

Maria João Franco tinha 13 anos quando conheceu Bernardo Santareno. “Ele tinha imensa graça. De tudo fazia uma piada qualquer, a começar por aquele ritual de se atirar à água, que não podia ter mais de dois centimentros de altura… porque ele não sabia nadar. Chapinhava ali, e depois recuperava os óculos (via muito mal) e voltava para a toalha. Também tinha dias em que oscilava essa graça com algum estado depressivo”.

A felicidade dos Verões da família Franco na Nazaré seria tragicamente interrompida pela morte súbita do irmão, em 1963. “Nunca soubemos a causa da morte – a minha mãe optou por não deixar autopsiar – mas a partir daí a Nazaré ficou para sempre associada a essa desgraça que se abateu sobre a nossa família”, conta a pintora ao Jornal de Leiria.

A partir daí Miguel Franco, a mulher Edith, e a filha Maria João, passam a fazer praia no Algarve. Bernardo Santareno (pseudónimo literário do médico psiquiatra António Martinho do Rosário) continuará a acompanhá-los até finais dos anos 70. Quando adoeceu, ficava-se por Cascais, e assim foi até à sua morte, a 29 de Agosto de 1980. E mesmo depois da morte dos pais, Maria João Franco não voltaria à Nazaré, a não ser de passagem.

São Martinho e São Pedro, da realeza à burguesia
“Tenho viajado muito em Portugal e no Estrangeiro, mas não conheço nada mais lindo que São Martinho do Porto”, terá dito um dia o Rei D. Carlos, deslumbrado com a beleza da baía que cativou diversos monarcas no final do século XIX e princípio do século XX, de tal forma que a baía acabaria por ficar conhecida como “o bidé das marquesas”.

Entre a realeza e a burguesia que ali se instalava no verão, às senhoras bastava “molhar os pés na água”, sabendo que “os longos cabelos molhados com água salgada produzem mais males do que aqueles que o banho é destinado a combater", aconselhava Ramalho Ortigão no seu livro As Praias de Portugal: Guia do Banhista e do Viajante, publicado em 1876.

A atracção por São Pedro de Moel 
Os loucos anos 20 levaram a São Pedro de Moel o princípio de uma arquitectura de autor “ímpar no país”, como sublinha Gabriel Roldão, que ali mora há muitos anos. “Era uma praia frequentada por uma certa elite, que aqui se instalou”, conta ao Jornal de Leiria, certo de que se tornou “tão poderosa que levou a Câmara a fazerl -lhe o primeiro campo de ténis que aqui existiu”.

Um dos primeiros a chegar terá sido Geraldino de Brites (avó da escritora Maria Luís Roldão Brites, de Pombal), “que era mais do que um médico, era um cientista”. Como São Pedro era, afinal, uma aldeia, Geraldino construiu ali o palacete quando o filho – o advogado pombalense  

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