Sociedade

Estado gastou zero na reflorestação do Pinhal de Leiria

26 jul 2018 00:00

Desprezo | Após os discursos inflamados e das promessas, o Pinhal de Leiria continua à espera das medidas urgentes de protecção de solos e linhas de água e da aguardada reflorestação.

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Jacinto Silva Duro

Os cidadãos anónimos e as empresas chegaram-se à frente e semearam, o dono-Estado, ficou a ver.

“No dia 23 de Julho de 2018, pela primeira vez, desde 15 de Outubro de 2017, estavam máquinas a limpar o Pinhal de Leiria. Dá vontade de rir, mas é verdade. Escrevi no meu caderno de apontamentos, quando vi aquilo, o seguinte: 'hoje, o ICNF iniciou - amanhã são capaz de já lá não estar - os trabalhos de limpeza e protecção das zonas não ardidas do Pinhal de Leiria, perto da Guarda Nova. Mais uma vez, jogaram na lotaria do tempo e salvaram-se de mais um incêndio'.”

O relato é de Gabriel Roldão, autor dos dois volumes da História do Pinhal de Leiria e voz incómoda que, desde 2003, não se cansou de alertar que aquela mata nacional era um barril de pólvora à espera de arder, devido ao desinvestimento do Estado.

O fogo de 15 de Outubro do ano passado deu-lhe razão, quando queimou 86% dos 11.021 hectares - cerca de 14 mil campos de futebol - do Pinhal de Leiria. A zona de produção ardida foi 86% do total e até agora, só foram detectados cerca de 35 mil pinheiros não ardidos, que não serão derrubados.

Foi durante a mesa redonda A floresta que queremos, organizada na segunda- feira, no âmbito do Simpósio Internacional da Floresta - Escultura em Madeira (SIF’18), pela Casa da Cultura da Maceira (Leiria) que Roldão deu a conhecer este e outros números que mostram que o Estado até ao dia 23 de Julho, na reflorestação e protecção da zona ardida daquela mata nacional investiu zero.

Exacto, leu bem, o Estado Português, segundo Gabriel Roldão, gastou exactamente zero euros.

“Por iniciativa de grupos de voluntários e empresas privadas - sem qualquer acção do Estado - foram reflorestados 385,7 hectares da zona morta, com 650 mil árvores. Até ao fim do ano, espera-se que sejam repovoados 600 hectares, com um milhão e 200 mil árvores. Os privados gastaram 437.141 euros. O Estado, neste momento, nove meses após o fogo, ainda não investiu um tostão no Pinhal de Leiria. Zero! A única coisa que fez foi apoiar a reflorestação feita pelos privados, com o seu aparelho técnico", acusou o historiador, durante a tertúlia que teve ainda como convidados Vítor Poças, presidente da Associação das Indústrias de Madeira e Mobiliário (AIMMP), e os arquitectos João Marques da Cruz e José Charters Monteiro.

A 22 de Dezembro, o Estado fez uma acção de estabilização das arribas dunares junto ao Ribeiro de Moel. Após isso “todo o percurso ribeirinho até ao mar, que precisava do mesmo trabalho, ficou à espera. Não fizeram mais nada", adiantou.

Nos 3700 hectares de zona morta, por sementeira espontânea, segundo o especialista irão nascer entre 250 mil a 300 mil pinheiros por hectare, a partir das sementes adormecidas no solo.

Vendas e abates
Até 18 de Julho, em Viseu, onde está o centro de venda das madeiras queimadas, foram vendidos 96 lotes do Pinhal de Leiria, com um total de um 1.309.545 árvores, em seis hastas públicas (529 mil metros cúbicos de madeira), com uma receita de 12,1 milhões de euros.

Quando a actual configuração do Pinhal de Leiria foi delineada, só seria possível cortar pinheiros com um crescimento de 100 anos, depois passou a 92 e a 80. Recentemente, era de 72 anos e agora, Gabriel Roldão diz que já se fala de apenas 70 anos.

Razões que o levam a afirmar que a madeira de pinho cada vez tem menos qualidade. Durante a mesa redonda, Vítor Poças pegou na ideia e assegurou que a qualidade média do pinheiro, em Portugal, serve apenas para fazer palitos e não para a manufactura de móveis. Para se conseguir melhor madeira de pinho e de carvalho, é preciso importar milhões de euros de matériaprima, referiu.

O corte e exploração de pinhal de acordo com as regras originais é apelidado de "ajardinam

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