Sociedade

Duas décadas de GPS não travaram duplicação de pedreiras

1 fev 2019 00:00

Sediado em Pombal, Grupo Protecção Sicó adquire estatuto de utilidade pública

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Daniela Franco Sousa

Ao cabo de mais de vinte anos de actividade, eis que o Grupo Protecção Sicó (GPS) adquiriu no final de 2018 o estatuto de instituição de utilidade pública. A este grupo sediado em Pombal se devem inúmeras descobertas de grutas e de algares, achados arqueológicos, denúncias de atentados ambientais e as mais variadas iniciativas de sensibilização para o ambiente. E os projectos do GPS estão longe de parar por aqui, com a construção do futuro Centro BTT Sicó, a nascer nas instalações da EscolAbrigo, nas Ereiras, Redinha.

Mas se a defesa de algumas causas, como a preservação da água, começam a sortir efeitos, com uma população cada vez mais consciente do impacto dos seus actos, já outras estão longe da resolução, como é o caso da preservação do maciço calcário de Sicó.

Segundo os ambientalistas, em duas décadas de trabalho do GPS, à imagem do que sucedeu no resto do País, também as pedreiras desta região duplicaram de tamanho.

Pedro Alves, presidente do GPS, e Cláudia Neves, vice-presidente e membro do grupo desde a sua fundação, em 1997, começam por congratular- se com a recente notícia da aquisição de estatuto de instituição de utilidade pública, que entendem ser “o reconhecimento do trabalho que o GPS tem feito ao longo de 22 anos”.

Este grupo de jovens, dissidente de uma associação anterior, mostrou desde sempre uma dinâmica excepcional, recordam Pedro e Cláudia. Todos eles praticavam espeleologia, pelo que desde logo se registaram na Federação Portuguesa de Espeleologia. Actualmente, o GPS é composto por 192 associados, todos voluntários, e a espeleologia continua a ser uma das mais importantes actividades do grupo, notam os dirigentes. Também a protecção do ambiente é outra das vertentes que esteve presente desde sempre, acrescentam.

Entre outras iniciativas que ao longo do tempo têm marcado a actividade do GPS, os dirigentes destacam: a participação na escavação arqueológica na Gruta do Algarinho (Sistema do Dueça – Penela), em 1999; a descoberta da Lança da Idade de Bronze, também na Gruta do Algarinho, em 2001; a descobertade três crânios humanos na mesma gruta, em 2006; a descoberta da pegada de dinossauro na Serra de Sicó, em Abiul, em 2003; descoberta do Algar do Abismo de Sicó, a 107 metros de profundidade, em conjunto com o Núcleo de Espeleologia de Condeixa, em 2005; apoio aos vários trabalhos de campo realizados pela bióloga Ana Sofia Reboleira; monitorização, também ao longo de vários anos, dos abrigos de morcegos; e mais recentemente, em 2018, realização de sessões públicas de esclarecimento sobre fracking.

Quer a contaminação da água, através da poluição dos algares, quer a destruição do maciço calcário de Sicó, através da exploração das pedreiras, têm sido as maiores preocupações dos membros do GPS.

Dejectos de animais, dejectos humanos, carcaças de animais e desperdícios resultantes da produção de azeite, lançados para os algares, eram formas de contaminação de água muito frequentes na região. Mas, asseguram Pedro Alves e Cláudia Neves, fruto também do trabalho de sensibilização do GPS e da maior quantidade de caixotes e de ecopontos disponíveis, encontra-se hoje menos lixo pela serra. Quanto às pedreiras, e apesar das denúncias a várias entidades, “todas as queixas têm caído em saco roto, aliás como sucede por todo o País”, realça Pedro Alves.

Localizadas em zonas de reserva, as explorações terão duplicado a sua área nos últimos 20 anos, estima o presidente do GPS. “Estamos a destruir património, a alterar todo o regime hídrico, a fauna e a flora. E no dia em que as pedreiras pararem, com extensões tão grandes, o que se pode fazer lá? Provavelmente nada”, diz Cláudia Neves. E Pedro Alves acrescenta: “estamos a querer 'vender' o País aos turistas, promovendo a escalada e o BTT. Mas quem vai querer fazê-lo no meio de uma pedreira?”, interroga o ambientalista.

A promoção turística, sustentável, deve ser de resto uma das apostas a considerar não só por Pombal, como por todos os concelhos que beneficiem da Serra de Sicó, consideram os ambientalistas.

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