Desporto

Duarte Basílio, o velocista malandro que fundou um clube... de xadrez

3 mar 2016 00:00

Tinha fama - e proveito - de rufia, mas o talento que apresentava nas pistas era ímpar. Foi recordista nacional dos 400 metros em pista coberta, mudou de ramo, e há três anos apareceu com um clube de xadrez que já forma campeões nacionais.

Fotografia: Ricardo Graça
Jacinto Silva Duro

“Sim, eu sei. Era um grande malandro. Mas não era por mal.” O sorriso na foto não engana, mesmo que tenham passado quase trinta anos. Parece que Duarte Basílio tinha um íman para atrair problemas e a maioria das histórias por que passou são impublicáveis.

Os colegas de então também preferem não mexer muito no assunto, até porque são todos respeitáveis cidadãos e assim se querem manter. “O que aconteceu nos anos 90 fica nos anos 90”, explicam. E sim, muita gente lhe pergunta como é que ele, logo ele, fundou um clube de... xadrez. Mas já lá vamos.

Os estágios das selecções de atletismo eram o local privilegiado das aventuras de Duarte, o chefe do gangue. “Os treinadores e dirigentes falavam para todos, mas sempre a olhar para mim”, recorda. O cúmulo do azar foi ser apanhado em fuga duas vezes na mesma noite. Duarte Basílio era isto, mas era muito mais, porque tinha um rendimento jamais visto em pista.

Por incrível que pareça, passadas duas décadas e meia, continua a ser detentor de quatro recordes distritais: as melhores marcas de juvenis de 200 metros, 400 metros e 100 jardas ao ar livre e de 400 metros em pista coberta permanecem em sua posse. Esta última marca (50.5 segundos), alcançada em Braga no dia 29 de Fevereiro de 1992, há precisamente 24 anos, foi recorde nacional durante seis anos.

“Como é que passado uma data de anos, com nutricionistas, com biomecânicos e com pistas de tartan, os recordes distritais deste parolo continuam de pé?” Duarte pergunta e dá a resposta. “Os miúdos de hoje não fazem sacrifícios. Morava nos Capuchos, ia para o estádio a pé, fazia um treino duríssimo e voltava a pé. Agora, os pais vão buscar os meninos.”

Curiosamente, a prova de que menos gostava de fazer foi aquela em que mais se destacou: a volta à pista. “Os 400 metros são um martírio enorme. Acabava a prova e tinha de fugir para vomitar, porque ia mesmo ao limite, quase desmaiava.” Depressa chegou ao topo e depressa desistiu, forçado pelas lesões. Sem ressentimentos, porém.

“Temos de ter a consciência que estávamos nos primórdios da modalidade em Leiria e, por isso, fomos cobaias.” Chegou ao Mundial de juniores, em Lisboa, e ao Festival Olímpico da Juventude Europeia, na Bélgica, mas aos 20 anos estava arrumado. “Faltava-nos acompanhamento médico em Leiria”, explica.

E conta mais uma história. “Não conseguia recuperar de uma lesão e o professor Carmino, que era o treinador, levou-me ao Centro de Medicina Desportiva, em Lisboa. Nunca mais esqueço a imagem do médico, baixinho e com umas patilhas enormes. Deita-me da marquesa, salta para cima de mim, puxa-me o joelho e fiquei bom. Devo ter feito uma cara surpreendida, pois ele disse: 'Vens lá da paróquia até pensas que é milagre.' E realmente foi.”

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