Viver

De amor e de sombra: Os dias do Folio que mudaram a vida de Óbidos

4 out 2018 00:00

Como um projecto de regeneração urbana da vila transformou ruínas em livrarias e criou uma marca para o futuro

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Paula Sofia Luz

A casa da livraria Tinta da China está à pinha, e espelha bem, lá dentro, o que é o Folio – cá fora: muita gente, música e livros e autores e leitores misturados, turistas (sobretudo brasileiros) e um fenómeno a crescer todos os anos.

É domingo no mundo, está um calor que convida mais a banhos na Foz do Arelho ou no Baleal do que ficar sob tectos de madeira em casas velhas, mas mesmo assim Óbidos está à pinha. Vamos no terceiro dia da quarta edição do festival literário internacional e a vila transborda de tudo, fazendo jus ao lema do evento: “ócio, negócio. A invenção do futuro”.

Há quem não queira mais nada da vida que ficar ali, numa esplanada à sombra, entre copos de vinho branco fresco ou ginjinha, que repousam sobre livros. Ou quem só queira passear entre as muralhas que guardam a vila, comprar blusas de renda, espadas de madeira e bolsas de cortiça, ou o mais original artesanato que casa bem com a literatura. E há quem só vá ali para ver, ouvir e falar com os escritores, sem o filtro dos jornais ou da TV. E naquela tarde de domingo passado são sobretudo esses que esgotam a casa da Tinta da China, respirando de alívio quando conseguem subir cada degrau da escada de madeira e entrar na sala onde, daqui a nada, estará o humorista Ricardo Araújo Pereira.

Ali ainda todos se lembram de como foi, no ano passado, quando ele e o brasileiro Gregório Duvivier protagonizaram um momento único. Mas desta vez o prato há-de ser servido em doses: primeiro Ricardo, a apresentar o seu mais recente livro (Estar Vivo Aleija), que resulta das crónicas escritas para o jornal brasileiro Folha de São Paulo.

“É o seu melhor livro” – atira Bárbara Bulhosa, a editora. E só depois Gregório, com a mulher, Maria Ribeiro, o escritor Xico Sá, e ainda a poetisa Matilde Campilho, descrita ali como luso-carioca. E enquanto meio mundo passeia ao sol quente deste último dia de Setembro, entre a cerca do castelo e a entrada da vila, há uma sala que ri.

Ricardo Araújo Pereira tem ali o seu público, aquele que o lê na Visão, que lhe compra os livros, que o descobriu quando era rapaz novo no Gato Fedorento. Que lhe aguarda o regresso à TV, previsto para Janeiro. Que começa bem o dia, com ele, de manhã, com a “mixórdia de temáticas” da rádio Comercial. É tudo isto, mas os primeiros 20 minutos desta apresentação são envergonhados para a assistência, que custa a descontrair para fazer perguntas. Até que uma rapariga atira, do meio da sala: “O Ricardo estáse a tornar tão popular, não tem medo que quando o professor Marcelo Rebelo de Sousa acabar o seu segundo mandato, o considerem uma hipótese para Presidente da República?”.

RAP responde: “é muito raro termos a demonstração de como Óbidos é mesmo a vila da ginjinha…” E a partir daí tem a plateia com ele. Explica então que não haverá “nenhuma vaga de fundo”. Porquê? “Porque o meu trabalho é fazer pouco do PR. É com isto que eu alimento as minhas filhas. Seria uma despromoção que eu não aceito. Além disso é melhor para a sociedade que eu tenha uma profissão assim”.

Nessa altura o público ainda não sabe, mas é muito ténue a linha entre o riso e o choro. Será mais adiante, quando a conversa flui, descontraída, que Ricardo partilha com o público essa capacidade de transformar momentos maus. “Há aquela frase que diz ‘quando o sábio aponta para a lua, o tolo olha para o dedo.’

O humorista olha para todo o lado”. Como no dia em que teve de “adormecer” a cadela Lola, que agonizava há dois meses, e antes disso lhe cumpriu uma espécie de último desejo, em forma de paio fatiado.

Naquele momento o espaço Ó, da Tinta da China, parecia saído de um filme daqueles em que a curva entre a comédia e o drama é bem ligeira. RAP limpou as lágrimas, disfarçou a voz embargada e continuou. Porque estar vivo aleija, como se sabe. E “fazer rir dá muito trabalho, embora igual prazer”. No meio do público um rapaz quer saber “qual é o seu maior medo”.

Ricardo contorna, e transforma-a num desejo: “ter público suficiente para as minhas filhas continuarem a comer. A única coisa que me interessa na vida é fazer rir as pessoas”. De resto, sintetiza bem, no final, o que move o Folio – “não conheço outra forma de aprender a escrever que não seja lendo”.

Ao cabo de hora e meia de conversa, e quase outro tanto tempo a autografar, o autor personificava ali aquilo que a organização sempre quis para o Folio: que não seja um evento de (simples) apresentação de livros. “Mas antes tenha a dimensão de promover a literatura, com os escritores a pensarem sobre as coisas e a comentarem com o público temas da actualidade”, diz ao JORNAL DE LEIRIA Telmo Faria, presidente da Associação Cultural Sociedade Vila Literária.

Foi ainda no seu último mandato de presidente da Câmara de Óbidos que o festival começou a nascer, e é ainda com a sua ajuda, agora neste papel, que continua a crescer.

A estratégia que vem de 2012
Humberto Marques assistia na primeira fila à apresentação do livro de Ricardo Araújo Pereira, um dia antes de assinalar o primeiro ano do seu segundo mandato, na Câmara de Óbidos. “A estratégia vem de um executivo de que fiz parte e de que me orgulho, embora o primeiro Folio tenha surgido já na vigência do segundo ano do meu primeiro mandato”.

Recorda então ao JORNAL DE LEIRIA que tudo começou em 2012, “com um sonhador, que é o José Pinho (da Ler Devagar). Foi ele que se lembrou de abrir livrarias em Óbidos”. 

Estava em curso o projecto de regeneração urbana a decorrer dentro da vila, e abria-se uma nova oportunidade para as ruas habitadas por pouco mais de 100 pessoas mas visitadas por milhares.

“E fazer conviver os livros – uma coisa mais contemporânea - com o passado, era uma espécie de antípoda a funcionar muito bem. Foi a partir daí que começámos a construir livrarias, a ampliar livrarias. Mas era preciso fazer muito mais do que isso”, conta o autarca. E fez-se o resto.

“Nesse primeiro ano estávamos a organizar o e uma candidatura à Unesco para cidade criativa da literatura. Muitos diziam-me que era loucura – até porque normalmente estas candidaturas se preparam em dois ou três anos – mas pedi sempre que confiassem em mim, porque eu confiava na equipa. Felizmente fomos bem sucedidos”.  

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