Viver

Danças com “intas” e “entas”

5 abr 2018 00:00

Fora de tempo | São bailarinas que, no entendimento de quem jamais dançou, começaram fora de tempo. Com 30 e 40, ou mais, anos, regressam ou iniciam-se na arte. Aproveitam o facto de os filhos “irem para a dança” e até ficam, após aqueles saírem.

Cláudia, Sara, Sónia e Iara (Foto: Ricardo Graça)
Catarina Jerónimo (Foto: Ricardo Graça)
Catarina Jerónimo (Foto: Ricardo Graça)
Catarina Jerónimo (Foto: Ricardo Graça)
Graça Costa (Foto: Ricardo Graça)
Graça Costa (Foto: Ricardo Graça)
Graça Costa (Foto: Ricardo Graça)
Bailarinas nas aulas
Bailarinas nas aulas
Bailarinas nas aulas
Jacinto Silva Duro

A sua paixão nunca concretizada é pisar o palco e dançar em pontas, mas sente que já deixou passar a oportunidade? O mais certo é ainda estar a tempo de ir para o ballet ou para outra modalidade da dança.

Contamos aqui a história de seis bailarinas que frequentam duas das muitas escolas de dança da região, com oferta de aulas para alunos adultos e ficámos a saber que a dança serve não apenas para o bem-estar físico, mas também para conforto mental.

Por exemplo, na Escola de Dança Clara Leão, em Leiria, há duas turmas, uma de ballet para adultos e outra de dança contemporânea, com dez alunas cada. Com sapatilhas, com e sem pontas, as bailarinas dão largas ao talento e enchem o coração com o prazer que é saltar, rodopiar e executar movimentos, arduamente estudados, ao som da música.

“Não penso que isto seja um ‘milagre da dança’, mas a percepção de que o corpo fala e pode ser um veículo para uma mensagem. As aulas dão saúde física, emocional e mental”, assegura a responsável, Clara Leão.

Claro que a flexibilidade de uma pessoa com 30 ou 40 anos, não é a mesma de uma com apenas 18 ou 20 anos e os exercícios têm de ser, mesmo que imperceptivelmente, adaptados, porém, para as bailarinas adultas, os pliés, os tendus, os jetés, os fonduso u os frappés não têm segredos.

“O corpo começa a responder automaticamente, com o tempo. Nota-se uma evolução física e técnica, mas a saúde emocional é o que mexe mais com estas pessoas”, explica a professora de dança.

No Studio K, tudo começou quando começaram a aparecer pais a perguntar se havia aulas também para eles. “Chegámos a ter turmas só de adultos, mas não funcionou. Por um lado, não conseguíamos manter o grupo, porque os adultos desistem facilmente por razões familiares e profissionais. Por outro, a ligação entre as praticantes adultas e as adolescentes é muito forte e de cooperação", explica Margarida Urbano.

A responsável pelo estabelecimento de ensino artístico, também de Leiria, refere mesmo que em palco, nos espectáculos abertos ao público, com os figurinos e maquilhagens, umas se confundem com as outras. Homens interessados há muitos, contam Clara e Margarida, mas raramente dão o salto para vestir as licras e colocar as pontas.

“Dizem que, ‘um dia destes’ vão às aulas, mas, depois, argumentam que estão cansados e não aparecem. Elas são mais persistentes. Tenho até duas médicas que após o serviço de banco das urgências e VMER vão dançar. Eles cedem mais ao sofá e à cervejinha”, brinca Clara Leão.

Tal como noutra actividade física, para iniciar as aulas, não é preciso estar no pico da condição física, basta estar minimamente em forma e ter força de vontade. "O melhor é vir experimentar", resume Margarida Urbano.

Graça Costa, a “pioneira”
É presença constante nos vários eventos que a Escola de Dança Clara Leão é convidada a animar. GraçaCosta diz que um adulto fazer ballet não é “nada do outro mundo”. “Sou uma pessoa normal que pratica ballet. Outras pessoas andam de bicicleta ou jogam à bola.”

Em jovem, no Porto, praticou a modalidade até que, aos 18 anos, a vida a afastou da segunda de todas as artes. Só aos 34 anos, quando foi viver para Leiria e inscreveu a filha de três anos na Escola de Dança Clara Leão, regressou aos pliés e jétés. Sentiu que estava na hora de fazer exercícios de barra no chão e o “bichinho renasceu”.

Foi há 19 anos. De lá para cá, participou em coreografias e espectáculos, numa simbiose normal e confortável com a arte. “Aquela escola é uma casa que permitiu fazer aulas e conviver com a minha filha. Quando ela saiu, ainda me perguntei o que estava ali a fazer.”

Com o tempo, as dúvidas dissiparam-se. “O meu corpo envelheceu e eu aprendi a envelhecer. Agora, pratico dança porque me apetece fazê-lo”, diz”.

Catarina Jerónimo, um amor antigo
Ser bailarina era o sonho de criança de Catarina, 45 anos, assistente dentária. Só de falar no assunto, admite, emociona-se. Teria cinco anos quando percebeu que, dentro de si, ardia a chama do ballet.

“Era um dom. Nunca senti tanta vontade de fazer uma coisa como dançar.” A adolescência veio, passou e acalmou-lhe o coração. “Aos 19 anos, tive oportunidade de ir para um grupo de ballet, mas a frustração de não ter começado cedo fez-me sentir que já não poderia ter uma carreira profissional na dança.”

Decidiu arrumar o assunto na sua cabeça, embora, qual centelha de um fogo adormecido, ele continuasse lá. Em Outubro do ano passado, lançou os medos para trás das costas e lançou-se, incondicionalmente, nos braços da paixão. A barragem que sustinha todos os sentimentos e paixões cedeu e Catarina inscreveu-se no grupo de dança para adultos da Escola Clara Leão.

“Disse à Clara que tenho mesmo gosto e amor por isto. Não vou às aulas por desporto. Sinto na minha alma e corpo que isto está dentro de mim.” Começou no estilo contemporâneo, mas a professora desafiou-a a aprender ballet.

“Experimentei e a primeira aula foi muito difícil, porém, a força que, aula após aula, se começa a sentir, mostrou-me que querer é poder”, conta. Recentemente, participou num espectáculo da escola, no Teatro Miguel Franco, e espera poder voltar a dançar em Julho, no próximo.

“É um amor muito antigo que concretizei. Deixei de me preocupar se as pessoas estão a olhar para mim e a dizer: ‘ela está doida, a achar que pode dançar’. Sempre que termino um ensaio, fico cheia de boa energia e boa disposição. Sinto-me rejuvenescida”, afirma.

Sónia Calado, a família no palco
A empresária de 47 anos ensaiou-se no ballet apenas aos 40. A primeira tentativa durou apenas um ano e depois parou. Passados dois anos, quando a filha mais velha deu os primeiros passos na dança hip-hop, no Studio K, em Leiria, inscreveu-se no sapateado que, rapidamente, foi substituído pelo ballet e dança jazz.

Chegou a ter os quatro filhos na dança. O mais novo fazia ballet, as filhas do meio faziam sapateado com a mãe e, a mais velha, hip-hop. "Chegámos a participar os cinco num espectáculo! Quando danço esqueço as preocupações. Sou só eu, a professora e a dança. É uma terapia", conta, explicando que a dança sempre foi "uma paixão", mas quanto era criança, era algo que só era acessível a pessoas de posses e não havia muitos locais a ensinar.

Agora, integrada numa turma com alunos de 15 e 16 anos, sente-se parte de uma dinâmica envolvente. "Acolhem- nos bem e respeitam-me. Devo ser a aluna mais velha da escola, mas não o sinto. Parece que somos todos da mesma idade e as professoras puxam tanto por nós, como pelas mais novas."

Sara Fabião, pliés atrás do balcão
No trabalho passa os dias em pé a atender clientes e os colegas já a apanharam a fazer pliés atrás do balcão. "Sai-me sem querer. Estou ali e acontece", conta Sara, de 35 anos. Uma das suas mais antigas recordações de infância são as aulas de ballet no Orfeão, com professora à moda antiga, rígida e de bengala na mão.

Sara lembra-se das brincadeiras com as outras meninas, mas a mãe conta que, enquanto esperava que a aula terminasse, ouvia muita risada e a professora a gritar: "ó Sara está calada!"

"Havia lá outra Sara, mas acho que era para mim. Até que a minha mãe se fartou daquilo e a minha carreira como bailarina acabou. Mas eu sempre adorei dançar", diz, de sorriso aberto. No ano passado, tomou uma resolução: voltar à dança.

"Como trabalho perto, aproveito para ir às aulas de ballet clássico ou barra de chão. É uma dinâmica muito gira. Sou mais velha até que a professora." Quando começou, achou que não se iria adaptar, especialmente por estar a dançar com raparigas mais novas. No início, estranhou as conversas de namorados e de Facebook, conta.

“Mas o cerne das conversas de balneário é o mesmo do meu tempo de juventude: ‘este gosta daquela, mas ela não gosta dele e gosta de outro’”, conta. "Agora, quando apareço, há uma aluna, a Laurinha, de 12 anos, que diz: 'isto hoje vai ser divertido!'

Estar com elas, faz com que nos esforcemos mais. Se elas conseguem, também queremos fazer e dá muita “pica” ver que começo a fazer, naturalmente, coisas complexas". Ainda não consegue fazer a espargata, mas está “muito, muito perto”.

Cláudia Vitorino, mindfulness pessoal
A psicóloga de 38 anos aponta o dedo a Sónia Calado. “É ela a ‘culpada’ de ter ido para as aulas de dança. Inscrevi a minha filha de três anos, em ballet clássico, e fui ver o espectáculo da escola. Fiquei encantada, quando vi a Sónia e os quatro filhos em cima do palco. Pensei: também quero!"

Por essa ocasião, leu um artigo que dava conta de que as mulheres eram mais felizes na

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