Sociedade

Da prisão para a mesa

20 out 2016 00:00

Nos últimos cinco anos, os reclusos da ex-prisão escola de Leiria produziram mais de 100 toneladas de produtos hortícolas para o Banco Alimentar contra a Fome.

Fotos: Ricardo Graça
Maria Anabela Silva

Sentado ao volante do tractor, Daniel, de sorriso tímido, saboreia o contacto com o ar livre, tão diferente dos momentos de reclusão na cela. Cá fora, a tratar da vinha ou da horta, sente- se um pouco mais próximo da liberdade. É também a oportunidade de reviver outros tempos. Os tempos em que, ainda livre, ajudava os avós na “lavoura”, em Estarreja, de onde é natural.

De lá, trouxe alguns conhecimentos sobre o trabalho da terra, que lhe têm sido úteis no Estabelecimento Prisional de Leiria – Jovem (EPLJ), onde integra a brigada responsável pela vinha e pela horta, as únicas actividades agrícolas desenvolvidas actualmente pelos reclusos.

Na zona da Várzea, encostada ao rio Lena, também se cultiva milho, mas a produção é feita por uma empresa, em resultado de um acordo de utilização das parcelas. “Nós preparamos o terreno e fazemos a rega. Depois, recebemos uma percentagem [do valor da produção]”, explica o chefe Onofre, que ainda se recorda do tempo em que grande parte dos terrenos da quinta da prisão eram cultivados.

Outros tempos. A falta de mão de obra especializada, nomeadamente de 'mestres' que davam formação aos reclusos, e as exigências fitossanitárias acabariam por ditar o fim de muitas actividades agrícolas. A vacaria foi encerrada há cerca de cinco anos e o cabril conheceu o mesmo destino em 2012. Já antes tinha sido desactivado o lagar de azeite.

Sobreviveu a adega, que tem vindo a ser modernizada e que, por estes dias, vive tempos de azáfama, como testemunhou o JORNAL DE LEIRIA, que acompanhou uma manhã de vindima no estabelecimento prisional, feita nos passados dias 6 e 7.

Pouco antes das 9 horas da manhã do último dia de trabalhos, os cerca de 40 reclusos que este ano participaram na colheita das uvas, já se encontravam distribuídos pela vinha, sob o olhar atento dos guardas.

“É preciso um dispositivo com alguma complexidade. Montámos um quadrado de segurança e temos elementos dentro da vinha, a acompanhar as carreiras [de videiras]”, conta o chefe Onofre. Questões de segurança à parte, José Ricardo Nunes, director do EPLJ, fala da “explosão de alegria” que se vive por ocasião das vindimas.

São duas manhãs em que “pára quase tudo na prisão, para a festa” da colheita. Para alguns, como Daniel e Vítor, que, ao longo do ano, cuidam da vinha, é o corolário de dias de trabalho. Para muitos, como Mauro, é a oportunidade de fazer uma actividade diferente do quotidiano.

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