Economia
Da nuvem ao prato, a Brainr quer ser o primeiro unicórnio nascido em Leiria
A startup desenvolve software cloud-native especializado para a indústria alimentar, que age como “sistema nervoso” da fábrica e integra IA, IoT e big data para melhorar a gestão de produção em tempo real. A solução, intuitiva e focada no chão-de-fábrica, explora uma lacuna no mercado e recebeu 11 milhões de investimento
A Brainr, empresa de deep tech sediada em Leiria, especializada em software cloud-native para a gestão da indústria alimentar, poderá ser o primeiro “unicórnio”, ou seja, uma startup avaliada em cerca de 900 milhões de euros ou mil milhões de dólares, nascido no concelho, caso as suas expectativas de captação de mercados globais e consolidação de soluções tecnológicas se consolidem.
A equipa acredita que tal meta é possível, impulsionada por um financiamento robusto e um mercado global que clama por digitalização.
Em Novembro, foi eleita como uma das 50 startups mais promissoras da Europa, pela Sifted Future 50.
A empresa, que faz parte do universo de entidades incubadas na Startup Leiria, garantiu uma ronda de investimento seed de “até 11 milhões de euros”.
Este montante, liderado pela C2 Capital Partners, destina-se a catapultar o crescimento, a investigação e desenvolvimento e a expansão internacional da empresa.
Neste momento, conta com 25 colaboradores, mas o plano passa por contratar, no mínimo, uma pessoa por semana até ao final do próximo ano, estando uma expansão das instalações já em curso, para albergar os novos elementos da equipa.
O CEO, Paulo Gaspar, garante que existe uma oportunidade muito grande para a Brainr, porque “é a primeira solução mundial focada só, única e exclusivamente, na indústria alimentar” e em todas os seus pormenores e características únicas.
“A indústria alimentar é uma das maiores do mundo. Toda a gente tem de comer, portanto há poucas indústrias em que a oportunidade seja tão grande. Está tudo por fazer. Se a Brainr se conseguir posicionar como a solução de eleição mundial, seremos o primeiro unicórnio nascido em Leiria. Acredito que é possível. Depende, obviamente, de nós, da nossa equipa, percorrer esse caminho para lá chegar, mas estamos bem encaminhados”, assegura o responsável.
“Sistema nervoso central” da fábrica
A ideia por detrás desta startup, cujos sócios-fundadores são além do CEO, Rui Batista e Ricardo Granada, nasceu do diagnóstico de que a fileira alimentar é “uma das [indústrias] menos digitalizadas do mundo”, onde os processos críticos no “chão de fábrica” ainda dependem de papel ou folhas de cálculo excel.
A plataforma Brainr é assim uma “solução digital nativa na cloud [na nuvem]”, que funciona como um “sistema nervoso central” que permite à empresa, coligindo em tempo real informação através de inteligência artificial (IA), de internet das coisas (IoT) e de big data, na prática, “ver, sentir, cheirar e gerir” cada pormenor dos processos e etapas em ambiente fabril.
O resultado é uma solução que congrega aspectos da indústria 4.0 e de smart manufacturing.
“Começámos a Brainr com a ambição de construir ‘um cérebro’, tal como o nosso, que está ligado a tudo. Está ligado aos ‘membros e a toda a parte de um organismo’. Numa fábrica, isso traduz-se em estar conectado a tudo o que é máquina, graças a sensores distribuídos estrategicamente, mas também às pessoas e aos seus terminais, para, a seguir, orquestrar e definir qual é o próximo passo para se conseguir atingir as metas quotidianas, da forma mais eficiente possível”, explica Paulo Gaspar, o CEO da startup.
A informação canalizada é interpretada destacando-se os insights mais importantes, que servirão como factores de decisão e de gestão operacional.
O Brainr, explica, foi especialmente adaptado e focado na indústria alimentar, área onde já existiam sistemas genéricos que, na generalidade dos casos, não permitem a integração e não promovem a resolução de questões ligadas às operações deste ramo económico.
O uso intuitivo está presente desde a génese.
“A primeira pessoa que contratámos para a BRAINR foi um designer, em virtude da nossa preocupação com a experiência do utilizador. Isto é algo que, nos outros softwares de gestão de produção, tem sido completamente relegado para o segundo plano. Quisemos transpor para uma aplicação industrial a experiência de utilização que os utilizadores estão habituados no seu dia-a-dia, nas suas aplicações, com os seus telefones. Queremos transpor para a solução Brainr a intuitividade do software e melhorar a formação das pessoas, pois esta indústria tem muita rotatividade de recursos humanos e, quanto mais rápido e fácil for a formação, mais as empresas ganham e poupam dinheiro.”
Paulo Gaspar adianta que houve um investimento numa plataforma cloud native, criada do zero.
“Com uma experiência de utilização muito mais moderna, mais intuitiva, mais fácil de trabalhar e acedendo também a tecnologia mobile, algo que a maioria dos ERP presentes no mercado não consegue fazer. São questões diferenciadoras numa das indústrias menos digitalizadas do mundo”, adianta.
Com melhorias diárias ou semanais, a plataforma da startup de Leiria entrega novas funcionalidades a uma fileira da economia que assim não precisa de investir em customizações extensas de softwares, para trazer velocidade e inovação à indústria alimentar.
“As empresas que estão ainda no mindset antigo de que o ERP é o software para fazer tudo, vão chegar a um ponto onde ficarão paradas no tempo, constrangidas, estranguladas com as capacidades que essas soluções lhes dão e com o peso do investimento que tiveram de fazer em customizações, que não vão conseguir evoluir.”
Entre os case studies de sucesso, estão a Avisabor, empresa de Estarreja, que, após a implementação da solução Brainr, escalou a produção de 40 mil frangos por dia para 190 mil, enquanto, na Campoaves, de Oliveira de Frades, houve uma redução de erros de expedição superior a 94%.
Valores que, para os sócios-fundadores, mostram a grande necessidade desta agilização e melhoramento de solução.
“A nossa estratégia é clara. Em Portugal, queremos obter o máximo de casos de estudo de sucesso, possível para aprendermos nos vários mercados subverticais diferentes. Isto porque a área da produção de bovinos é ligeiramente diferente da de suínos, que é ligeiramente diferente da do frango, que é ligeiramente diferente das frutas, das bebidas ou da padaria”, descreve o CEO.
A operação de gestão com a solução da Brainr é muito focada no ambiente de fábrica. Paulo Gaspar traça um paralelismo com a cadeia vertical da Lusiaves, que é avícola e que passa por várias fases, entre elas a produção das galinhas, dos pintos, dos ovos, da ração e até ao abate processamento e distribuição, para explicar o ponto onde a startup está presente.
“Agimos no matadouro e na fábrica de processamento de carne. Operamos só aí. Não estamos nem na parte da gestão da criação dos animais, nem na distribuição. Estamos na fábrica, mas integramos com tudo o que está a montante e com a gestão. Assim, conseguimos digitalizar a cadeia, do pintainho que acabou de nascer até à cuvete que vai para o supermercado.”
E isto é especialmente importante, por exemplo, no que concerne às questões de rastreabilidade.
“Com o BRAINR conseguimos receber informação de outros softwares que gerem toda a parte de criação de animais e transpô-la para o código de barras da cuvete, para que o consumidor, num supermercado, possa ‘picar’ esse código e saber onde aquele frango foi criado e as datas de validade”.
Mudar a forma como as pessoas dentro das organizações trabalham no dia-a-dia, é um dos pontos essenciais para a aplicação da solução, contudo, a experiência mostra o quão difícil é atingir essa meta, quando se trata de mudar comportamentos e formas de agir.
“A forma como criámos o Brainr e a própria metodologia de implementação passa por ir integrando a pouco e pouco na fábrica, minimizando a disrupção e entregando valor o mais depressa possível. Se uma implementação MES demora um ano ou mais, nós queremos, nas primeiras semanas, estar a entregar valor. Para tal preferimos fazer a coisa iterativamente. Dividimos a fábrica em secções e percebemos quais são as necessidade de cada uma, para que as pessoas consigam sentir e experienciar a mudança e as melhorias que a digitalização traz.”
Um esforço de uma década
Em 2015, Paulo Gaspar começou a construir o departamento da IT da Lusiaves.
“Era apenas eu no início, mas, em 2023, éramos já mais de 50. Naqueles primeiros anos, o desafio foi pensar como iríamos pegar nesta máquina e trabalhar com ela. Fomos implementando um conjunto de softwares e automações nas várias áreas de negócio. Desde cedo, foi muito claro que, num grupo como a Lusiaves, e isto acontece noutros grupos nacionais e estrangeiros, tendencialmente as pessoas e os gestores fazem escolhas que, no passado, faziam sentido, mas hoje já não. Compram um software ‘milagroso’ que promete resolver todos os problemas.”
Tipicamente esse software é o ERP, que promete tratar e fazer tudo; da parte financeira, às operações, além de todos os processos intermédios.
“A verdade é que pegar num software genérico e tentar adaptá-lo à realidade de cada negócio é muito difícil. Implica muito desenvolvimento, muitos custos, prejudicando toda a evolução futura desse software, porque quando está customizado, o empresário não quer mudar para a próxima versão.”
A solução foi “separar as águas”.
De um lado, operações comuns a todas as empresas, tais como a parte financeira, a contabilidade, tesouraria, compras ou vendas.
“Seja uma fábrica de rações, um matadouro, uma fábrica de processamento de carne ou uma de moldes são processos semelhantes”, faz notar o responsável.
Do outro, a BRAINR promove a separação entre toda a parte administrativa da parte operacional.
“Entendemos que a parte administrativa, os ERP já instalados e que funcionam perfeitamente não necessitam de muita evolução. No entanto, na parte operacional queremos garantir que temos a melhor solução, criada para a indústria e para as operações que estamos a focar.”
Em 2019, quando a transformação digital do grupo Lusiaves já estava em andamento, Paulo Gaspar abordou a parte mais difícil do processo, que, compreensivelmente, estava a deixar para o fim.
“Para os matadouros, fui ao mercado à procura da melhor solução para digitalizar as operações. Aquilo que encontrei foram plataformas muito antigas, a maioria delas mais velhas do que eu, que tenho 38 anos. Não iria comprar uma coisa que parecia mais de 1995 do que de 2019. Depois de tentar falar com algumas das empresas que comercializavam esses softwares e que, hoje, são concorrentes, e de lhes dizer que os ajudaríamos na melhoria do software, tomei uma decisão, perante as respostas negativas. Se não fazem, faço eu. E foi aí que nasceu esta ideia de construir um software de gestão de produção dentro do grupo Lusiaves”, recorda.
O trabalho prosseguiu e, no final de 2023, foi feito o spin-off/out e nasceu a BRAINR, como startup independente, com um produto que já tinha sido desenvolvido e intensivamente testado dentro do grupo Lusiaves que acabou por ser uma espécie de “pre-seed investor” e incubadora, como diz Paulo Gaspar.
“Criar um produto dentro do mercado-alvo de utilizadores que o vão utilizar é fantástico, porque conseguimos aperceber-nos de todas as nuances e pormenores a que, de outra forma, não teríamos acesso. Temos uma solução forte e estamos a conquistar outros clientes da dimensão do grupo Lusiaves não só em Portugal, mas além-fronteiras, noutros mercados subverticais do ramo alimentar, dos suínos, aos bovinos, entre outros.”
Hoje, cerca de 30% da carne produzida em Portugal, é produzida com o uso de BRAINR, segundo Ricardo Granada, head of product marketing da empresa. Este responsável adianta que a solução da empresa está na iminência de ser aplicada num grupo agroalimentar espanhol que, sozinho e por alto, representará o equivalente a 70% da facturação total da fileira portuguesa.
Além de Espanha, também o Brasil, Lituânia e Estados Unidos estão na mira da BRAINR, que conta também clientes em Moçambique.
“São países com grande produção agropecuária e dos maiores produtores mundiais de proteína animal no mundo.”
No início do terceiro trimestre de 2025, a Brainr foi uma das startups mais faladas no ecossistema nacional, especialmente após o anúncio da ronda de investimento seed, que garantiu 11 milhões de euros para acelerar o crescimento da empresa.