Sociedade
Central das Artes procura afirmar-se como espaço cultural de referência
Curador Ricardo Vicente defende integração na Rede Portuguesa de Arte Contemporânea
A completar quatro anos de inauguração e contabilizando cerca de 19 mil visitantes, a Central das Artes de Porto de Mós tem-se vindo a afirmar-se como um espaço cultural de referência, com a exibição de exposições de alguns dos maiores nomes da arte contemporânea. Para o curador Ricardo Barbosa Vicente, que já dirigiu três exposições no espaço, é chegado o momento de a infra-estrutura aderir à Rede Portuguesa de Arte Contemporânea.
Inaugurada a 25 de Junho de 2022, a Central das Artes nasceu no edifício da antiga Central Termoeléctrica, depois de um investimento de cerca de 3,2 milhões de euros do município (dos quais 2,3 milhões provenientes de fundos europeus) e seis anos de obras. O espaço degradado, que outrora recebeu o carvão proveniente das minas da Bezerra e que trouxe a luz eléctrica ao concelho na década de 30, deu assim lugar a uma nova funcionalidade, como edifício de carácter lúdico e cultural, sem abdicar da sua história.
Segundo dados do Município de Porto de Mós, as exposições e demais actividades da Central das Artes receberam, em 2023, 5.399 visitantes. O número total subiu para 6.207 em 2024 e para 7.208 em 2025. A maioria dos visitantes das exposições é portuguesa.
Ricardo Barbosa Vicente foi o curador responsável por duas destas exposições, encontrando-se actualmente a desenvolver a terceira. Arquitecto com raízes em Cabo Verde, foi co-curador da X Bienal de Arte de São Tomé e Príncipe, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian.
Ao JORNAL DE LEIRIA explica que a sua ligação à Central se tem concretizado projecto a projecto. O primeiro, em co-curadoria com João Carlos Silva, foi Porto de Nós – Confluências Transnacionais, que esteve patente em 2024. A exposição reuniu 45 artistas de vários países lusófonos e integrou as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. “Tínhamos artistas de grande dimensão, vindos de todos estes territórios”, recorda.
No mesmo contexto, foram ainda realizadas três intervenções de arte urbana na cidade, reforçando a presença feminina no projecto. A 15 de Maio foi inaugurada Dez Cantos Abertos, exposição que ficará patente na Central até 30 de Setembro. Esta mostra integra a grande edição comentada e ilustrada de Os Lusíadas, propondo uma leitura contemporânea da obra através do cruzamento entre artes visuais, literatura, instalação, vídeo e som. A ideia passou por convidar artistas e escritores de diferentes territórios lusófonos a olhar, hoje, para Os Lusíadas, com total “liberdade de criação”.
Próximo projecto
O próximo projecto da Central das Artes está já em preparação. O ponto de partida será o barro e o têxtil, duas valências ligadas ao território, “trabalhadas a partir do encontro entre conhecimento local, artistas em residência e contributos de dimensão nacional e internacional”, explica o curador. A exposição está prevista para Novembro e deverá “juntar artistas e artesãos em processos de produção conjunta e troca de saberes, numa lógica de maior proximidade ao território”.
Ricardo Barbosa Vicente defende que é o momento de a Central das Artes integrar a Rede Portuguesa de Arte Contemporânea, uma estrutura nacional apoiada pelo Estado que agrega centros de arte contemporânea, museus e espaços expositivos distribuídos pelo território nacional. A inclusão nesta rede permitirá tirar partido de linhas de financiamento e receber outras exposições. “Seria o caminho”, defende.
O curador sublinha ainda a necessidade de catalogar as exposições que passam pela Central, de forma a criar um registo histórico, bem como de reforçar a aposta na diversificação da programação, sem nunca esquecer a dimensão local. A aproximação às escolas, argumenta, constitui um trabalho essencial de mediação cultural, algo que já se encontra a ser feito e que deve continuar.
“Tenho de dar os parabéns ao município” por esta iniciativa, afirma, destacando a necessidade desse trabalho abranger mais gerações e novos programas. O feedback do público às exposições tem sido positivo, mas o curador destaca a necessidade de aumentar a relação das pessoas com o espaço cultural. Uma das possibilidades seria criar uma cafetaria ou outro espaço de permanência que ajudasse a tornar a Central “não apenas um lugar de passagem, mas também um espaço onde se possa estar, conversar e regressar”.
Para isso, defende, é igualmente importante escutar o território e perceber aquilo que a população gostaria de encontrar naquele lugar, para que a Central das Artes funcione como um “organismo vivo”.
Outro desafio passa pela autonomia da própria Central, nomeadamente ao nível da comunicação institucional, actualmente assegurada pelo município. Para Ricardo Barbosa Vicente, essa autonomia ajudaria o espaço a afirmar-se de forma mais clara como uma estrutura polivalente e de arte contemporânea, com identidade própria e uma relação mais directa com os seus públicos. “É um dos desafios que deixo”, conclui.