Viver

Carregar no play e viver a cultura fora do online. Como e quando?

1 mai 2020 13:35

Depois dos lives nas redes sociais que mantiveram a ligação com o público, o sector precisa rapidamente de afirmar novos formatos para receitas e conteúdos

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António Pedro Lopes (fotografado por Vera Marmelo)
DR

Estão na direcção artística e organização de três festivais com expressão local e nacional. Falam sobre o confinamento que parou as actividades da Cultura, a migração para o online e as expectativas num sector em que o pós-pandemia surge ainda cheio de incertezas.

António Pedro Lopes
(foto em cima, na abertura do artigo)
Festival Tremor

1. Os artistas e as estruturas de produção estão a conseguir obter receitas dos directos e de outros conteúdos em vídeo e audio neste período de confinamento?
A Bandcamp tem feito um trabalho incrível de acções que garantem que o dinheiro de todas as compras de discos e merchandising vá para artistas e editoras, com muito sucesso. Hoje mesmo, dia 1 de Maio, eles repetem a acção. O Spotify também abriu espaço para doações. Muitos artistas disponibilizam contas bancárias e mbways em lives de Instagram, Facebook, Twitch, e por cá são várias as novas plataformas a pensar a relação com o áudio e o vídeo do playitsafe.pt ao Rhi Stage. Vejo também marcas, teatros, rádios, instituições a convidar artistas para directos ou transmissão de conteúdos em diferido, e aí, só posso esperar que exista uma compensação financeira. Aliás, é um momento privilegiado para uma marca se posicionar ao lado de um artista ou de um evento, uma vez que se utilizam meios de comunicação de massas e as possibilidades de impressões e alcance são enormes. Fala-se pouco ainda de resultados financeiros. É difícil ler, neste momento, se funciona ou não, e para quem sim ou não, mas a sensação é de profusão desmedida de conteúdos, muita actividade, muitas vozes, muitas plataformas, o que vendo bem as coisas, parece-me normal porque em um mês e meio mudou tudo. Mas acredito que mais dia menos dia, tudo fique mais sistematizado e surjam plataformas que possam cruzar apoio privado com apoio de espectadores, onde sejam claros os resultados financeiros, e também melhoradas a qualidade de som e imagem nos vídeo ao vivo.

2. Como imagina o regresso dos concertos, espectáculos e festivais?
O regresso de concertos, espectáculos e festivais será progressivo e faseado em total contingência, tomando em conta várias medidas sanitárias e limitações reduzidas. É exemplo disso, os métodos implementados em países como a China e o Taiwan: vamos usar máscaras, gel desinfectante, manter distâncias e medir temperaturas. Vai parecer anti-natura e contra a dimensão de liberdade inerente à fruição artística e à ideia de viver uma experiência colectiva, mas esses passos parecem-me inevitáveis para perdermos o medo, arriscarmos ir, e desse modo, garantir a vitalidade do sector e a nossa necessidade de sermos sociais e de nos encontramos em torno da cultura. Não vai ser fácil, mas urge experimentar modos de fazer e instaurar manuais de boas práticas, temos que ir aprendendo como se faz, temos que errar. Tudo o que possa aparentar um exagero de caução não é demais, todo o cuidado é pouco. O mundo está traumatizado, mas precisamos sair deste lugar de tristeza, temos que ir testando, por isso, creio que o regresso será breve e ao longo dos próximos meses.

3. Podemos esperar novas vivências relacionadas com a arte e a cultura, no ambiente online e fora dele, depois do levantamento do estado de emergência?
Por mais engenho ou tecnologia, nada substituirá a experiência de deslocação e encontro que um concerto, exposição, ir ao cinema ou que ver um espectáculo proporcionam. A arte e a cultura propõem intercâmbio, feedback e jogo de presenças. Uma app, uma realidade aumentada, uma ligação em directo ou um desafio em corrente serão sempre complementos desses pressupostos e nós jogamos esses jogos porque queremos nos manter ligados à realidade, aos outros, às experiências, aos lugares e às memórias inscritas na pele. Agora, venham artistas em gruas, palcos móveis, videomappings, performances que reinventam o espaço público ou que sejam de um para um, peças de teatro para funcionarem em vídeo e em direto, processos criativos abertos a todos. Os concertos por Whatsapp, os poemas por chamada, as performances take away. A casa como palco e lugar de fruição veio decerto para ficar. Vamos olhar mais para a frente e para o lado, venham os projectos de proximidade que celebrem cada localidade e as suas narrativas e que defendam, estimulem e desafiem as suas comunidades artísticas locais. E reinvente-se, reforme-se os formatos que já conhecemos - da rádio à televisão, da cassete à carta, do vídeo ao email e redes sociais - do analógico ao tecnológico continua tudo por explorar e fazer.

Elisabete Paiva (Foto de Nuno Direitinho)

Elisabete Paiva
Festival Materiais Diversos

1. Os artistas e as estruturas de produção estão a conseguir obter receitas dos directos e de outros conteúdos em vídeo e audio neste período de confinamento?
Não maioria dos casos creio que não. A maior parte das propostas online surgiu em resposta ao cancelamento de actividades e ao confinamento. Apresentar uma criação ou um evento ao público é a própria razão de ser desta actividade — não apresentar pode significar tornar-se invisível, desaparecer, o que fragiliza uma actividade profissional já frágil. Creio que os artistas e estruturas, por necessidade, e também por generosidade, por as pessoas estarem isoladas e sem acesso a uma oferta diversificada, avançaram continuando a trabalhar. Na maioria dos casos creio que nem houve a preocupação financeira. Isto deve dar que pensar. Qual é então o valor que os cidadãos atribuem à cultura e ao trabalho dos profissionais desta área?

2. Como imagina o regresso dos concertos, espectáculos e festivais?
Será um regresso faseado, os eventos ao ar livre primeiro, no verão, e os restantes talvez em Setembro. Parece-me que será um regresso cauteloso e até hesitante, de todas as partes, e de certeza com lotações muito limitadas. Haverá condições de segurança a providenciar que podem não só afastar os públicos como trazer custos acrescidos às organizações culturais, que podem ou não conseguir suportá-los. Estranho a insistência do Governo em falar em regresso à normalidade sem nunca ter investido de forma decidida e consequente nas medidas de emergência, e receio que seja um discurso que pressione os agentes culturais a retomar sem grandes consequências e sem considerar que os públicos vão querer segurança ou até outro tipo de actividades.

3. Podemos esperar novas vivências relacionadas com a arte e a cultura, no ambiente online e fora dele, depois do levantamento do estado de emergência?
Com certeza que sim, não vamos passar indiferentes a esta experiência brutal. Até porque não há certezas sobre o verdadeiro fim da pandemia e por isso ainda vamos viver colectivamente muitas experiências marcantes. Vamos usar as tecnologias e o digital com outra fluência, outra familiaridade, espero também que com maior sentido crítico, que façamos melhor produção online. A nossa relação com o real e o virtual, com o tempo e o espaço, também vai mudar. Aí não posso prever, só desejar, que o corpo ganhe outro vigor, outra qualidade, mais sensível e menos espectacular. Pessoalmente gostaria de ver algumas mudanças nas programações culturais: menos eventos, mais intimidade, mais relevância, mais cultura de bairro. É um belo desafio!

Gui Garrido (foto de Ricardo Graça)

Gui Garrido
Festival A Porta

1. Os artistas e as estruturas de produção estão a conseguir obter receitas dos directos e de outros conteúdos em vídeo e audio neste período de confinamento?
Uns sim, outros não, tal como sempre aconteceu quando as circunstâncias eram outras. Os conteúdos online foram e são em muitos casos, resposta imediata a um confinamento, uma necessidade, e/ou das poucas possibilidades de subsistência de artistas e estruturas. Mas a capacidade de obter receitas, depende dos mais variados factores: desde a possibilidade de criação de uma plataforma de monetização dos conteúdos; onde, com quem e com que meios se encontrou quando confinado; a qualidade com que consegue produzir e transmitir conteúdos; os meios de comunicação e respectivas redes para que se consiga ter espaço na imensidão dos conteúdos online; e mais um mar infinito de (im)possibilidades para a obtenção de receitas através de conteúdo online. Mais centrado nas estruturas, também depende bastante da missão e possibilidade das mesmas. Há estruturas que tiveram a capacidade de se reinventar em pouco tempo e conseguir continuar um trabalho de programação, remunerando os artistas e intervenientes, e outras que gostariam de ter essa capacidade, mas não a têm.

2. Como imagina o regresso dos concertos, espectáculos e festivais?
Há uma impossibilidade de fazer futurologia, de saber quando e como será o regresso dos concertos, espectáculos e festivais, pelo menos nos moldes como o mundo estava habituado a planear e experienciar até agora. Assim como não sabemos como o público, os agentes culturais e todos os que edificam os projectos, se irão relacionar, interagir, viver o que foi desenhado e projectado e que obviamente, de agora em diante, todos os projectos serão testemunhados e apreendidos de uma outra forma. Há que continuar a ter respeito por todos, a ser agente de saúde pública, a ter a noção da importância do que fazemos, do papel transformador da Arte e da Cultura, mas também temos a noção que o mundo mudou e por isso temos todos de mudar com ele.

3. Podemos esperar novas vivências relacionadas com a arte e a cultura, no ambiente online e fora dele, depois do levantamento do estado de emergência?
Em primeiro lugar acredito que a Arte e a Cultura são lugares de mutação, são projectos revisíveis, que incentivam a transformação e assimilação das mudanças do mundo, são transversais e construídos em colaboração e em relação com as necessidades e vontades das comunidades, são projectos que escutam o mundo e nele encontram perguntas e respostas. O mundo digital tornou-se (ainda mais) em galeria, sala de concertos, espectáculo de teatro e de dança, atelier de pintura, e das mais diversas manifestações artísticas, mas o mundo na sua plenitude, nas suas ruas, jardins, praças, teatros, clubs, etc, encontra a sua potência máxima e infinitas possibilidades. Assim que fôr possível e com o devido respeito e segurança para com todos, novas vivências de uma “nova” normalidade serão construídas e vividas fora do mundo digital. Assim o espero. A Arte e Cultura questionam, transformam, erram, melhoram, ecoam, vivem e (sobre)vivem. Estes tempos, foram, são e serão outros, mas estaremos juntos para aprender e reaprender a lidar com o mundo em conjunto.

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