Sociedade

Aventuras e desventuras de umas férias ímpares

13 ago 2016 00:00

No mês preferido dos portugueses para gozar um período de descanso e aproveitar para conhecer novos locais e viver experiências diferentes, o JORNAL DE LEIRIA foi saber quais foram as melhores férias da vida de algumas das personalidades da região.

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Pedro Tochas: Interrail confirma paixão pelo espectáculo

Tinha uns 22/23 anos e combinei um interrail com quatro amigos da universidade. À medida que se aproximava a data, um a um, começaram a cortar-se. Quando chegou a data de partida ninguém foi. Não desisti e fui na mesma à aventura. Andei de festival em festival um pouco por toda a Europa. Percorri festivais de malabarismo, estive no festival de Hamburgo, onde já fui 19 vezes. Foram as melhores férias que alguma vez tive. Durante estas férias percebi que conseguia fazer férias sozinho e percebi que era no espectáculo que queria estar o resto da minha vida. O interrail durou cerca de um mês. Passava uma semana em cada local, de mochila às costas e um bocado perdido pelas ruas e cidades. Foi uma sensação de aventura única e o ter chegado vivo ao final da viagem foi uma sorte. Estive em festas com três mil pessoas. Cheguei a ir ao supermercado e a emprestar dinheiro a alguém que me pediu, que estava também num festival.

Carla Moreira: Rio de Janeiro, “o pacote completo”

Gostaria de ser viajante profissional. Encontro em cada viagem um prazer desmedido em todas as coisas novas que experimento, desde as comidas diferentes, aos lugares, o modo de viver e à cultura de gentes diferentes das nossas. Sou uma apaixonada por viagens. Somos todos cá em casa, bichinho que devo ter pegado aos meus filhos, os quais gosto de levar comigo sempre que posso porque considero um investimento na sua educação, na sua cultura, no seu mundo. Tenho tido o privilégio de conhecer muitos lugares extraordinários. Acabei de regressar de viagem à Malásia, Singapura e Dubai, que apreciei muito. Mas nenhuma viagem que tenha feito se pode comparar à viagem ao Rio de Janeiro. Cá em casa consideramos o Rio o "pacote completo". Habitualmente falta qualquer coisa, ali não falta nada. Não costumamos repetir os lugares mas o sonho é voltar ao Rio.

António Cova: Vila Nova da Varela deixou marcas… físicas

As melhores férias da minha vida foram passadas em Vila Nova da Varela, no parque de campismo ao ar livre em plena Serra de Sarrabulho. Todas as manhãs comia Corn Flakes com doce de morango, parecia um pequeno-almoço inglês. Não era, mas era como se fosse. Parecia mesmo que estava em Inglaterra por causa dos “ares da serra” e por estar sempre enublado. Foram as férias mais baratas da minha vida e com elas também. Entravam [baratas] pelos buracos da tenda mas não mordiam. No último dia foi demais… acordei todo transpirado, parecia que tinha acabado de tomar banho… ainda hoje me rio disso. Acho mesmo que foram as melhores férias da minha vida. É certo que não estarei a lembrar-me de algumas que terei passado num local que já não me lembre, mas com uma vida tão preenchida de férias torna-se difícil escolher as melhores.

Clara Leão: À descoberta de vestígios arqueológicos

Tive a sorte de poder repetir as melhores férias da minha vida durante alguns anos! Tudo começa com um hábito de acampamentos de férias orientados pelos jesuítas, que tinham a vertente de campos de trabalho para os mais velhos. Chegada aos meus 15 anos, em 1974, o meu pai, arquitecto amante da arqueologia, resolveu promover um de escavação de uma pequena povoação romana na encosta do castelo de Castro Laboreiro. O que ele pretendia era trabalho a sério, muita responsabilidade e bons resultados, e os rapazes e raparigas que frequentavam os campos de férias dos jesuítas não gostaram de tanta exigência. Assim, no ano seguinte, com uma dúzia de rapazes e raparigas entre os 15 e os 18, começou uma inesquecível experiência, que durou seis anos. Acampávamos com o meu pai, durante um mês, dentro do castelo de Castro Laboreiro. Trabalhávamos sete horas por dia na escavação, procedendo também ao tratamento e classificação dos achados arqueológicos. A vida era totalmente comunitária e províamos a todas as nossas necessidades: a água era transportada desde o rio, 200 metros abaixo, com um sistema de elevação de água que nós próprios montávamos; construíamos duche e instalações sanitárias com uma fossa séptica; e dentro de uma gruta montávamos a cozinha e um local protegido para tomar as refeições.

Raul Castro: (D)as melhores férias da minha vida

Junho de 1994. Chega a informação de que estava em formação uma equipa para fazer a ligação Leiria- -Dakar- Bissau em veículos UMM, uma ideia do Carlos Oliveira, que anos depois haveria de participar como piloto oficial no Paris-Dakar. Para quem tinha regressado em 1972, após o cumprimento do serviço militar naquele país, poderia ser uma oportunidade de ter umas férias especiais, onde certamente a emoção e a aventura se cruzariam. Assim, 15 pessoas deram início a esta “aventura” a 25 de Dezembro, com partida da Fonte Luminosa, em Leiria. Entrados em Tanger ficámos impedidos de prosseguir por razões de segurança. A primeira noite de acampamento trouxe a primeira surpresa para quem deixou as botas fora da tenda, que levaram sumiço. A viagem em território marroquino permitiu- -nos parar junto ao Cabo Bojador. Ao chegarmos à última cidade no sul, Dakhla, voltamos a ter algumas dificuldades para avançar por razões de segurança. No dia seguinte formou- -se uma coluna, liderada por uma ambulância, que nos abriu caminho até à denominada “terra de ninguém”, prosseguindo o nosso grupo, com instruções de não podermos fugir ao traçado existente. Mais à frente resolvemos montar acampamento e nova surpresa pela manhã: estávamos rodeados de tuaregues armados, o que provocou alguns receios no grupo… Ao entrarmos na Mauritânia deparámo-nos com controlo policial e militar e alguns grupos de turismo retidos, situação em que também ficámos. Tivemos a oportunidade de assistir à passagem do “comboio mais lento e mais pesado do mundo”, que afinal não era mais que um tractor ferroviário a rebocar 200 vagões carregados de fosfatos a caminho da costa. Passadas algumas horas fui com o 'Xina' [Carlos Oliveira], que levava nas mãos algumas canetas de lata amarela, falar com o responsável do posto para nos autorizar a seguir. O olhar interessado do responsável pelas canetas e alguma “gasosa”, acabaram por dar o Ok de saída. Atravessando parte do deserto do Saara, as emoções foram surgindo a todo o momento: encontramos um solitário casal de nómadas com duas crianças a quem oferecemos alguns bens. Deram-nos a conhecer como faziam fogo para cozinhar o peixe que apanhavam (fricção de 2 pedras) e percebemos as dificuldades de sobrevivência. Na travessia do deserto, uma das viaturas rompeu um dos depósitos, que originou a perda de considerável de gasóleo. Na primeira aldeia do Senegal perguntámos a um polícia por uma oficina. Qual o problema, perguntou? Informado do mesmo foi à esquadra e trouxe uma espécie de massa, que colou ao buraco, como se fosse pastilha elástica. Que massa?

Victor Faria: As melhores férias são sempre aquelas que vêm a seguir

Alio a ideia de férias mais às viagens do que ao tempo de lazer passado à beira-mar na proximidade de um gin - também gosto! - numa praia qualquer, de um pais qualquer. Viajo desde muito novo pelos sítios mais remotos do globo, sobretudo, pelos espaços do mundo que os portugueses palmilharam e nos quais, de forma mais ou menos impressiva, deixaram as suas marcas. Apesar de conhecer alguns países da América do Sul, a Europa e, razoavelmente, os EUA, privilegio desde há muitos anos o Oriente, onde regresso sempre que me é possível. O apelo do Oriente é uma espécie de condição, um misto de curiosidade histórica e de atracção irracional que não sei explicar. Fui 11 vezes à Índia, algumas à Tailândia. Estive no Sri Lanka, no Camboja, no Laos, no Vietnam, em Myananmar, na Malásia, na Indonésia, no Irão, na China, nos Emiratos, nos países da África do Norte. Conheci as grandes cidades do Oriente, Singapura, Hong Kong, Shangai, Pequim. Acabo de chegar do Tibete, uma viagem há muito projectada. Sempre quis ir ao Tibete e conhecer Lhasa e o Potala, apesar das informações contraditórias que tinha de lá. Uma coisa são os mundos imaginados e outra são os mundos reais. Cumpri esse objectivo e foi mais uma experiência extraordinária. Isto em pequena síntese. Mas tenho ainda muitos projectos por realizar. Talvez os mais arriscados e ambiciosos que deveriam ter-se cumprido em idade mais jovem. Por isso, as melhores férias são sempre aquelas que vêm a seguir. As peripécias por que passei são muitas e de vária natureza: desde sair do aeroporto de Argel e ao chegar ao Hotel em Colombo (Sri Lanka), ver pela televisão os locais do aeroporto por onde tinha andado oito horas antes completamente arrasados por uma bomba; sair da Tailândia poucos dias antes do tsunami e de Kuta Beach (Bali) uma semana antes da bomba que destruiu o local.

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