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Adeus “aparições”, olá “visões de Fátima”
"Visões" de Fátima atraíram pessoas de todas as classes

Sociedade

19 Maio 2017

Adeus “aparições”, olá “visões de Fátima”

Os eventos na Cova da Iria passaram a ser “revelação privada”

Após um fim-de-semana em que a “sagrada família dos três F” esteve em destaque em Portugal… com o Fado a ser substituído, momentaneamente, pelo festival Eurovisão, ficaram em cima da mesa novas ideias sobre Fátima.

A mais importante de todas é que as aparições na Cova da Iria foram, afinal, “visões”. Dentro da Igreja Católica, há vozes que fazem uma nova leitura de Fátima.

Sem colocarem em causa a importância espiritual, bispos, teólogos e pensadores eclesiásticos marcaram os dias pré-13 de Maio com várias afirmações sobre a natureza do que se passou em 1917.

Fundamentam as suas opiniões no seu próprio entender, em documentos oficiais da época, em relatos publicados na imprensa e autores que estudaram os acontecimentos. A alteração semântica tem génese na mais alta cúpula católica.

O cardeal e teólogo Joseph Ratzinger, antigo conselheiro de João Paulo II, sempre se referiu a “visões” e jamais a “aparições”. Em assuntos de tal importância, as palavras são previamente pensadas, pesadas e avaliadas para não passar mensagens erradas.

E isso é ainda mais válido no caso de Ratzinger, teólogo que foi entronizado como Bento XVI. O actual Papa emérito, que visitou o santuário em Maio de 2010, inseriu Fátima na categoria de “revelação privada”, com “apelo à fé e à conversão”.

“Seguindo o Catecismo da Igreja Católica, percebemos que este fenómeno implicou um escrutínio das autoridades, mas nunca assumirá a natureza de matéria de fé. A importância deste tipo de revelação encontra-se numa veracidade que alinha a aparição com a ‘revelação bíblica’, que é o referencial máximo de profecia e de revelação pública”, refere Paulo Mendes Pinto.

O coordenador da área de Ciência das Religiões, na Universidade Lusófona explica que “visão”, subalterniza o fenómeno, mas abre-o às possibilidades de interpretação e “às formas mais pessoais de viver a fé”.Torna assim a revelação privada em vez de pública, e isso ajuda a explicar inconsistências encontradas nos relatos das três crianças. 

Vestia de azul e tinha saia até aos joelhos Será seguro dizer que Portugal inteiro conhece a história de Lúcia, Jacinta e Francisco, as crianças que, em 1917, disseram à família e aos vizinhos que lhes aparecera, na Cova da Iria, uma “senhora em cima de um carrasco”, que entenderam ser a virgem Maria.

Esta ter-lhes-á transmitido um segredo em três partes, sobre o fim da Grande Guerra, a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria e uma figura de branco, provavelmente o Papa, que subia com “outros bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas” “uma escabrosa montanha.

O padre Manuel Formigão, fez os primeiros interrogatórios às crianças que achou "rudes e ignorantes". “A Jacintha afirma que o vestido da senhora chega apenas aos joelhos. A Lúcia e o Francisco declaram que desce até próximo dos artelhos”, concluindo que "Nossa Senhora não pode aparecer senão o mais decente e modestamente vestida”, escreveu.

E como tal, o vestido desceu até perto dos pés e libertou-se das vestes azuis, relatadas pelos videntes num primeiro momento, substituindo-as por um manto branco, que descia até ao chão.

Lúcia, que viveu até aos 87 anos, foi produzindo sucessivos textos, cada vez mais minuciosos, sobre os segredos como se, com a idade, se fosse lembrando de mais detalhes, remetendo as interpretações para a Igreja e seus teólogos.

A referência de Lúcia à Rússia só é feita em 1929. Já a terceira parte do “segredo de Fátima” só apareceu, numa carta escrita em 1944, em Tui, Espanha. Tal como em qualquer outro fenómeno atreito a dogmas, a Igreja fez a aplicação da velha divisa agostiniana; da dúvida resulta a fé. E duvidou.

Frei Bento Domingues é um dos teólogos que dizem que Fátima é “ambígua”, embora ressalve que não é dos críticos que dizem que “Fátima nunca mais”, fazendo referência ao padre Mário Oliveira.

O frade declarou ao Observador que acredita em Deus, em Jesus Cristo e na mãe de Jesus. “Naqueles fenómenos estou sem saber. Não faz parte do credo católico.”

O referido padre Mário Oliveira, em declarações ao JORNAL DE LEIRIA, estranha que “Lúcia fizesse perguntas à árvore e só ela ouvia as respostas.”

O sacerdote afastado pela hierarquia católica pelas suas posições extremadas, diz que “o clero de Ourém estava todo metido. O cabecilha foi o cónego Formigão. O clero criou um teatrinho e pôs as crianças a fazerem-no.”

Um pedaço de barro D. Januário Torgal Ferreira, antigo bispo das Forças Armadas, alinha pela bitola de Bento XVI.

Após dizer que não gosta do valor que a imagem da virgem tem para os católicos, lança mão do segundo mandamento, e diz: “escandaliza-me que as pessoas só rezem àquela imagem e se despeçam dela a chorar. Eu nunca me despeço de Nossa Senhora, porque ela está sempre comigo. Aquilo é um pedaço de barro!”

A falta de cuidado nas palavras usadas para o “aparecimento” da virgem também o agasta. “Não julguem que Nossa Senhora andou a fazer o pino em Fátima. Apareceu na consciência das pessoas."

Anselmo Borges, sacerdote, pensador e filósofo, por seu turno, afirma que, “sem presença física”, o que as três crianças sentiram foram visões. “Porque Maria está em Deus e não em corpo físico. Os três pastorinhos tiveram experiências interiores e isso não implica delírio ou alucinação. Aconteceram da maneira que crianças apreenderiam, naquele contexto de perseguição da Igreja pela Primeira República, da Grande Guerra e onde havia pregadores itinerantes que aterrorizavam os fiéis com o Inferno e anunciavam um deus que não é o Deus do Evangelho.”

Qualquer que seja a interpretação, a maior parte dos pensadores da Igreja classifica as “visões” como “um fenómeno místico, de fé, de paz e assente na mensagem de Fátima”.

Sem “hysterismo” 
Em busca de validação
No sábado, o Papa Francisco canonizou Jacinta e Francisco após a conclusão pela Causa dos Santos do processo de avaliação do milagre que a tal os tornaria elegíveis.

Lucas, a criança brasileira curada de um traumatismo craniano grave e sem esperança médica por intercessão dos pastorinhos esteve em Fátima no fim-de-semana.

Não se pense que foi um processo fácil e sem problemas. O santuário trabalhou durante anos para o objectivo. O JORNAL DE LEIRIA teve acesso a uma carta datada de 1991, onde se procurava ainda por provas de que os avistamentos tinham sido reais e não apenas uma alucinação.

Nele, o padre Luciano Cristino, responsável, na época, pelo Serviço de Estudos e Difusão do santuário, apela à família do médico António Rodrigues de Oliveira, de Leiria, que lhe comprove a existência de uma certidão onde aquele teria avaliado o estado mental das crianças.

O clínico é citado em documentos da Igreja por Manuel Formigão, um dos interrogadores da Igreja e impulsionador de Fátima, muito influenciado por Lourdes, como o médico que as teria examinado em 1917. “Não manifestam o mais pequeno symptoma de hysterismo s,egundo a declaração de um médico consciencioso”, escreveu o padre.

A resposta do genro do clínico, Afonso de Sousa, é curta: “não foi encontrado no espólio profissional do meu sogro qualquer relatório ou apontamento sobre o exame médico”. Adiantando que “se tal exame foi, na realidade, feito, o que tenha concluído em nada alterou a sua posição pessoal face ao problema religioso.”

Oliveira foi ateu e republicano até ao fim da vida.

Jacinto Silva Duro
Redacção Jacinto Silva Duro jacinto.duro@jornaldeleiria.pt






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