Opinião
Recomenda-se? Nem tudo...
O óbvio por vezes tem que ser imposto. Não é não. E para o entender é preciso treiná-lo, nas várias esferas das nossas vidas
O uso do cinto de segurança? Os limites de velocidade? Tantas outras regras do código da estrada? Não se recomendam. Nem se defende que devam ser apenas recomendações, para promover a condução responsável.
Algumas são, de facto, recomendações. Outras proibições. E outras obrigações. E todos aceitamos e apoiamos. Não pomos em causa. Sabemos serem essenciais, as regras de condução. E também as de conduta. É assim que vivemos em sociedade. Com regras. Não podemos fazer tudo o que nos apetece, como nos apetece.
A isso chama-se libertinagem, não liberdade. A liberdade é responsável. E termina onde começa a liberdade do outro. Sem comentar o inqualificavelmente gravoso processo dos exames nacionais deste ano, ainda em curso, e talvez irremediavelmente inquinado, assumo que parabenizo a decisão do ministro da Educação quanto à proibição do uso de telemóveis no 3º ciclo.
Confesso até não entender porque é que não é ainda proibido no ensino secundário e superior. Choca, claro que choca, pensar que é preciso uma lei (ou decreto, ou o que for... estou de férias, não fui confirmar...) para algo que deveria ser inato. Se estamos a trabalhar (que é o que os alunos estão a fazer nas aulas), não deveria ser preciso proibir o uso de distrações (que é o que os telemóveis são nas aulas). Mas não funcionamos assim.
É preciso ditar regras. E aplicá-las de forma transversal. Quando fazia eu parte dessa faixa etária, recordo- -me da campanha para promover o uso do cinto de segurança. Na altura, só quando passou a ser uma infração, punível por lei, portanto, é que passou a ser usado por todos. Funcionamos assim. O óbvio por vezes tem que ser imposto. Para passar a ser inato.
A regra, então imposta, ajudou a promover o uso responsável dessa novidade, então democratizada a todos os automóveis e seus passageiros. E hoje já ninguém pensa que é uma imposição. É só inato. Ainda que hajam prevaricadores. Porque os há sempre.
É este, também, o caso do não uso dos telemóveis nas aulas. Esta regra, que será agora imposta, como todas as outras, com alguns exageros e intransigências, até que se alcance o equilíbrio e passe a fazer parte da norma(lidade) escolar, é importante. Para promover o uso responsável do telemóvel. Para assim, daqui a uns tempos, passar a ser inata essa responsabilidade. Porque agora não é.
O óbvio por vezes tem que ser imposto. Não é não. E para o entender é preciso treiná-lo, nas várias esferas das nossas vidas. Para aprender a respeitá-lo. Sempre. Recomendar não basta.