Opinião
A inteligência artificial versus a burrice natural
Tal como Eduardo Prado Coelho, aprendi cedo que pior que não ter razão é ter razão antes de tempo
1– Numa crónica n’O Público, há mais de 15 anos, o saudoso Eduardo Prado Coelho, remando contra a maré do pensamento uniformizado, alertava para os perigos que a Net, as redes sociais e a proliferação do digital poderiam trazer à sociedade e ao desenvolvimento dos jovens. Citava especialistas que chamavam a atenção para o que também se estava a perder com a introdução massiva dessas tecnologias. Como professor, essa era uma das minhas preocupações.
Tal como Eduardo Prado Coelho, aprendi cedo que pior que não ter razão é ter razão antes de tempo. Recordo um colega, deslumbrado com os novos brinquedos, que previa que os alunos nem precisariam de ir à escola, pois as aulas seriam dadas à distância. Não duvidando dessa possibilidade, lamentei que a essência do processo educativo — a comunicação pessoal e direta — pudesse ser destruída.
2 – Outra voz que tem “clamado no deserto” é a do nosso conterrâneo, Professor Carlos Neto. As suas convicções, alicerçadas em anos de estudos e observações, têm vindo a confirmar-se: as crianças necessitam de “brincar”, construir com as mãos, mexer na terra e subir às árvores, substituindo horas frente ao computador e à TV por aprendizagens que apelem à motricidade e ao “saber fazer” concreto.
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Parece que a Escola e os educadores puseram Piaget de lado, esquecendo que, nos primeiros estádios, o desenvolvimento cognitivo e emocional consolida-se a par de um ambiente rico em estimulação motora, algo que o excesso de computador ou televisão limita. Não por acaso, os países nórdicos estão a voltar à escrita manual, aos livros e aos cadernos, valorizando competências essenciais.
Apesar disso, os burocratas da Educação continuam deslumbrados com as novas tecnologias. A investigação tem dado conta dos danos que a dependência das novas tecnologias e o uso sem moderação das redes sociais provocam nos jovens. Por isso, muitos países estão a proibir telemóveis nas escolas e o acesso às redes sociais até determinada idade.
3 – E o que dizer da Inteligência Artificial? Perante o alarme dos próprios criadores da IA, de que esta pode pôr em risco a humanidade, muitos olham de lado. Acredito que o perigo está mais perto do que se pensa. Se a IA criar sistemas nocivos capazes de invadir sistemas de segurança, destruir bases de dados de Bolsas e Bancos ou provocar apagões nas redes de energia e comunicações, o caos poderá instalar-se, com consequências devastadoras.
Perante estas possibilidades, um investigador português considerou exagerados os alarmes dos criadores da IA e afirmou que a inteligência humana terá sempre capacidade para regular as máquinas, nem que seja desligando-as da fonte de energia. Aí sim, fiquei descansado, porque nada pode igualar a burrice natural.
Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990