Opinião
O trigo, o joio e tudo aquilo que o vento trouxe
Esta tempestade serviu, acima de tudo, para separar o trigo do joio
Diz o ditado popular que é nos momentos mais difíceis que conhecemos verdadeiramente quem está ao nosso lado. Recentemente, Leiria foi fustigada por uma tempestade que, para além de arrancar telhas e derrubar árvores, soprou para longe as máscaras da conveniência social. Como um amigo me dizia (em modo bastante revoltado) enquanto observávamos o rasto de destruição: esta tempestade serviu, acima de tudo, para separar o trigo do joio. Achei curiosa a sua analogia.
Esta não é uma observação nova, mas sim a confirmação de um padrão recorrente no caráter humano. Já durante a pandemia, assistimos a fenómenos que hoje nos parecem absurdos, mas que foram profundamente elucidativos: a corrida desenfreada ao papel higiénico e a outros bens de primeira necessidade revelou, de forma crua, o pânico egoísta de quem só consegue olhar para o seu próprio umbigo. Na altura, como agora na tempestade, o medo ou a escassez serviram de catalisadores para expor o que cada um carrega no seu íntimo.
No cenário pós-tempestade em Leiria, o contraste foi gritante. De um lado, observámos o “joio”. Pessoas cujas preocupações terminavam rigorosamente no limite do seu portão. Para estas, a catástrofe foi apenas uma inconveniência pessoal intolerável. O foco absoluto residia na internet que não funcionava, na demora da reparação de meia dúzia de telhas ou no incómodo da falta de luz e de água durante dois ou três dias.
Numa visão estreita, o mundo parecia ter a obrigação de parar porque o seu conforto individual foi beliscado, ignorando que, na casa ao lado, o drama poderia ser de uma escala incomensurável. É talvez o mesmo perfil de quem, no início do confinamento, enchia carrinhos de compras sem pensar se restaria algo para o vizinho mais vulnerável.
Do outro lado, o “trigo”. E que lição de humanidade nos deram. Houve quem, mesmo com a casa inundada ou o telhado desfeito, encontrou forças para perguntar ao vizinho se precisava de uma refeição quente. Vimos cidadãos que, de lanterna e motosserra na mão e os pés na lama, se preocuparam em desimpedir caminhos comuns antes de cuidarem do seu próprio quintal.
Esta é a verdadeira visão de comunidade e proximidade: a compreensão de que a dor do outro não é um ruído de fundo, mas um apelo à ação e à solidariedade. Todos sabemos que a corajosa e combativa Leiria irá recuperar as suas infraestruturas. As telhas serão repostas e alguma normalidade regressará. Mas a memória de quem estendeu a mão — e de quem apenas se queixou da sua sorte individual — permanecerá na memória de muitos.
Que saibamos, daqui em diante, valorizar o “trigo” que floresceu no meio da lama, pois são essas pessoas que formam o verdadeiro alicerce de uma sociedade resiliente.
Texto escrito segundo as regras do novo Acordo Ortográfico de 1990