Opinião

E se for no Oeste o pôr-do-sol mais bonito da Europa?

14 ago 2026 21:00

Caímos na armadilha perigosa de banalizar o extraordinário só porque nos habituámos a ele

Há cerca de dez anos, numa viagem a Göreme, na Turquia, assisti a um cenário marcante: centenas de turistas acotovelavam-se numa grande varanda, em silêncio quase sagrado, para contemplar um pôr do sol verdadeiramente deslumbrante. Ao olhar para aquela multidão rendida, lembro-me de pensar que o nosso, com o sol a pintar uma linha dourada no mar, é ainda mais grandioso — e, no entanto, raramente o celebramos com o mesmo entusiasmo.

Caímos na armadilha perigosa de banalizar o extraordinário só porque nos habituámos a ele. Beneficiamos de uma centralidade geográfica ímpar. Estamos no coração do país e posicionados nessa varanda atlântica que é, simbolicamente, o “fim do dia” na Europa continental. Enquanto o resto do continente já adormece na penumbra, é aqui que a luz se despede com mais intensidade.

Para quem cá vive, este Atlântico a banhar praias de areia branca, a riqueza gastronómica da nossa terra e do nosso mar, e este horizonte dourado viraram simples paisagem de fundo. E como se não bastasse, acolhemos a maior ciclovia do país, desenhada a ladear o oceano, oferecendo quilómetros de mobilidade e contemplação.

Tratamos o que é único como se fosse comum. O que para nós é “o costume”, para o mundo seria um luxo inestimável.

Esta cegueira do quotidiano reflete-se na forma como nos posicionamos. Não sabemos vender o nosso território porque nos esquecemos do seu verdadeiro valor e da força da nossa localização.

Vender bem exige orgulho, mas exige sobretudo planeamento e estratégia.

Precisamos definir com clareza para onde queremos ir e deixar de navegar à vista. E isso passa, inevitavelmente, por preparar a casa para receber: esbarramos diariamente numa escassez gritante de hotelaria de qualidade, capaz de reter o visitante exigente que procura a nossa oferta natural e gastronómica.

De que serve estarmos no centro do mapa e sermos um dos últimos palcos da luz da Europa se não temos suficientes camas e serviços à altura para acolher quem nos visita?

Potenciar o Oeste e a nossa região não é inventar nada de novo, é sim lapidar o diamante em bruto que já temos.

Exige atração de investimento qualificado e uma mudança urgente de atitude: deixar de olhar para o que é nosso com a indiferença da rotina. Não nos esqueçamos que o norte-americano Garrett McNamara transformou uma onda nazarena num caso de sucesso.

A onda já lá estava e ele apenas soube como apresentá-la ao mundo. O sol continuará a mergulhar no nosso mar, abençoando esta geografia privilegiada. Cabe-nos a nós ter a inteligência de deixar de ver este privilégio como banal e começarmos a apresentá-lo como o espetáculo único que realmente é.

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990