Opinião
Dicionário Improvisado XLIX
Os abraços são isso mesmo: uma suspensão do pensamento
Democracia
«A democracia é o mais perfeito dos sistemas. Porque é o único que permite que cada pessoa participe convictamente na eleição de alguém que, no futuro, a irá prejudicar.»
Disse o ditador; e riu.
Incomunicabilidade
Sim, conhecia linguagem gestual. Mas preferia andar sempre com um caderninho e escrever nele o que queria dizer; gostava de desenhar as letras, uma a uma; gostava de olhar a pessoa enquanto lia o que lhe escrevera e antecipar no seu rosto abstraído a resposta que viria.
Quando se apaixonava por alguém, partilhava alguns dos seus caderninhos; achava que era uma forma de se dar a conhecer, como se partilhasse um diário íntimo. Mas as pessoas por quem se apaixonava rapidamente deixavam de se interessar pelos caderninhos. Uma delas disse, certa vez: «Preciso de ouvir-te dizer que me amas, não me basta lê-lo.»
Não soube o que responder. Se pudesse falar, teria dito: «Talvez um dia encontre alguém que aprecie um amor silencioso.»
Kairós
O avô dá um abraço à neta. Quando o faz, não pensa no futuro, nem em mais nada. Os abraços são isso mesmo: uma suspensão do pensamento. Se tivesse sido um abraço defeituoso, daqueles que não chegam a suspender nada, talvez pudesse ter sentido que aquele poderia ser o penúltimo abraço da sua vida. Não o último; o penúltimo, ou talvez o antepenúltimo. Mas foi um bom abraço. Igual ao primeiro. Infinito: como o tempo.
Ultracrepidanismo
As duas amigas estão na praia. Uma delas fala muito, mudando constantemente de assunto: blá-blá; a outra vai respondendo: hum-hum. O tempo passa. O sol começa a tornar-se menos quente. Pouca gente em redor. A luz está magnífica. Cada blá-blá vai encaixando harmoniosamente num hum-hum. O murmúrio do oceano embala-as e aproxima-as.
Se fosse para acontecer algo de natureza romântica, chegara o momento perfeito. Em vez disso, a do hum-hum pergunta: «Fazes ideia de quantos grãos de areia existirão nesta praia?»
A do blá-blá manda de imediato um número para o ar. E a amiga responde: «Exacto. Mais ou menos igual ao número de opiniões que uma pessoa normal consegue emitir em seis meses.»
A luz continua magnífica, mas algo se alterou.
Ventilação
As pessoas chegam e acomodam-se confortavelmente no parque escuro e tranquilo. Olham as estrelas e permanecem em silêncio.
Por vezes, alguém fala: conta uma memória pessoal. Todos os outros escutam. Depois, outra pessoa fala: também conta uma memória pessoal. Costuma haver uma brisa a balancear entre as árvores, há diversos cheiros da natureza que a maioria das pessoas que ali estão não consegue identificar. Mas ninguém fala disso, nem da brisa nem dos cheiros, limitam-se a partilhar memórias.
Verbalizam-nas, e elas permanecem ali sob as estrelas durante algum tempo; suspensas, vulneráveis, livres. Trouxeram-nas à rua, tal como outras pessoas passeiam cães noutros parques.