Opinião

De tanto chorar, criei um mar e para não me afogar, tive de aprender a nadar

19 out 2026 21:00

Sou daqueles que se emociona com quase tudo: com uma música que trespassa o meu coração que nem uma flecha ao transformar palavras em espadas tão afiadas ou em abraços tão ternos

Sou praticante desta arte desde que me lembro. Desde bem pequenino, que “destroco” lágrimas com um à vontade digno de “lacrimejador” olímpico, e agora aos 43 anos, apesar de o meu corpo já não me deixar fazer tudo como antigamente, chorar é um desporto que continuo a praticar com grande regularidade e sinto-me bastante apto para o fazer várias vezes por semana.

Sinto muito, sinto imenso, sinto de várias formas, e muitas dessas “sentidelas” traduzem-se em gotas que teimam vir não sei de onde, e encontrar na minha face, a rampa ideal para um salto para o mundo, maioritariamente de sabor salgadas, mas também agridoces e até já vieram doces, que isto de chorar há tantos anos, faz com que tenhamos de ser criativos e ir renovando o palato lacrimal.

Sou daqueles que se emociona com quase tudo: com uma música que trespassa o meu coração que nem uma flecha ao transformar palavras em espadas tão afiadas ou em abraços tão ternos; ao ler uma notícia sobre algo que acontece a um milhão de quilómetros de distância, mas eu sinto que está mesmo, mesmo, mesmo a acontecer aqui ao meu ladinho e só me apetece vestir uma das diversas capas (que acho que tenho, mas na verdade não tenho) de super-herói, para resolver num piscar (ou lacrimejar) de olhos; com um filme para crianças em que há mães, pais, filhos e filhas dinossauros, que nunca os conheci na minha vida, mas parecem em anúncios de televisão, trailers de filmes, ao ver pessoas conhecidas e por vezes também desconhecidas, ao ouvir histórias, ao contar histórias, ao escrever, ao ler, ao ver fotografias recentes e antigas, ao lembrar-me de mil e um momentos que já me aconteceram ou aconteceram aos outros, até já chorei a dormir e acordei com a almofada como uma amiga que está lá para limpar as lágrimas e dizer: volta a deitar aqui a cabeça que está tudo bem, são só mais umas gotas na tua vida.

Tenho também diversos choros, uma espécie de rodízio de H2O para todas as ocasiões: temos o emoção, o comoção, o alegria, o tristeza, o desespero, o excitação, o surpresa, o incrédulo, o raiva, o amor… temos choros à vontade do freguês e da freguesa, e após tantos anos a chorar, sozinho, à frente de pessoas que conheço, outras que não conheço, sinto-me bastante confortável nesta minha prática de “chorador” profissional, e reconheço a importância do choro na minha vida.

Acho que ainda tenho muita água em mim e já que tenho o nome Fontes, amo profundamente a aldeia das Fontes (e a sua admirável comunidade), acho que continuarei a ser uma espécie de fonte ambulante.

Não chores amanhã o que podes chorar hoje.