Sociedade

Salinas da Junqueira permanecem “um problema grave” sem solução à vista

6 jun 2026 11:34

Alvo de várias intervenções nas últimas décadas, o local permanece sem um projecto viável de utilização que sobreviva aos elementos naturais

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Claúdia Gameiro

Alvo de várias intervenções nas últimas décadas, as Salinas da Junqueira permanecem sem um projecto viável de utilização que sobreviva aos elementos naturais. Para a presidente da junta de freguesia de Monte Redondo, Ana Carla Gomes, há ali um “problema grave”, no qual o município de Leiria já investiu muito dinheiro, mas faltam soluções adequadas para o tipo de terreno húmido e propenso a inundações em que o espaço se encontra.

Localizadas entre as povoações de Carreira e Sismaria, as Salinas da Junqueira são salinas interiores, resultado da ascensão da água salgada que passa por um diapiro de salgema e gesso, o que aumenta a salinidade dos aquíferos. A estrutura industrial devoluta existente foi fundada por José Duarte Rolo Júnior, tendo ali funcionado, entre 1922 e 1980, a produção do sal “Império”.

O espaço encerrou devido à diminuição da salinidade da água. Hoje persistem cerca de cinco hectares de características por vezes pantanosas, com a particularidade de o nível freático se encontrar à superfície. Existem ainda várias lagoas, herdeiras da actividade salina, que funcionam como habitat de várias espécies de aves.

Devido ao substrato turfoso e ao solo movediço, a água nunca seca, mesmo no Verão, proporcionando o crescimento de juncos, caniçais e uma mata de amieiros e salgueiros. A vegetação já apagou a maioria da actividade humana que ali ocorreu durante décadas

Duas décadas de projectos de requalificação e abandono

As Salinas da Junqueira estão classificadas, em sede de Plano Director Municipal (PDM), como Património Paisagístico Municipal, e há muito que se procura preservar o espaço, devido ao seu valor biofísico, socio-cultural e turístico a nível regional. “Presta um conjunto significativo de serviços ambientais essenciais à sustentabilidade das actividades humanas (nas quais se destaca a agrícola) no norte dos concelhos de Leiria e Marinha Grande, designadamente controlo de poluição, controlo de cheias e secas, de pragas e doenças e de potenciação da biodiversidade”, refere a página do município de Leiria. Situa-se ainda na rota das aves migratórias do arco atlântico (África Ocidental – Norte da Europa).

As primeiras intervenções de requalificação do espaço abandonado pela indústria ocorreram em 2006. Ao abrigo do projecto INTERREG III B-SAL – “Revalorização da Identidade das Salinas do Atlântico – Recuperação e Promoção do Potencial Biológico, Económico e Cultural das Zonas Húmidas Costeiras”, as velhas salinas receberam um investimento de mais de 100 mil euros para passadiços, observatórios de aves, circuito interpretativo, entre outras estruturas, por forma a integrar a Rota do Sal Atlântico.

Não obstante o entusiasmo inicial, o equipamento rapidamente ficou entregue ao abandono e foi inclusive alvo de vandalismo. Ao longo dos anos foram surgindo, pontualmente, queixas dos líderes políticos relativas à degradação do espaço. O município de Leiria, ainda assim, procurava dinamizar as Salinas, como iniciativas como a exposição “Segredos do Património Natural e Cultural do Concelho de Leiria – As Salinas da Junqueira” (2016).

Em 2017, o JORNAL DE LEIRIA realizou uma reportagem no local, dando conta de um cenário “dantesco, de destruição e descuido”. Escreveu então o jornalista Jacinto Silva Duro, num texto de opinião: “Apesar de os fundos comunitários utilizados para a criação de passadiços em madeira tratada, torres de observação da fauna — das aves em especial — e mesmo as indicações para percursos pedestres, estes apresentam-se praticamente todos destruídos. Por um lado, percebe-se que se trata de incúria da autarquia local que não tem tido o cuidado de preservar e de divulgar, em especial entre os habitantes locais, a importância das antigas salinas, que tanta fome mataram e são um local especial e de identidade da freguesia, e, por outro, devido à acção de gente mal-intencionada, talvez habitantes locais, talvez de outras paragens, que, pela calada da noite, furta passadiços e outros elementos arquitectónicos do percurso de interpretação desta importante zona húmida de nidificação e importância cinegética do concelho de Leiria. Quem sabe quem terá sido? Ninguém viu ou vê nada. O JORNAL DE LEIRIA tentou [...] percorrer o percurso pedestre que dá acesso às salinas e que parte e chega ao centro da vila mas, na verdade, sem um sistema moderno de GPS é uma tarefa quase impossível, dada a ausência de sinalização”.

Um projecto de requalificação das Salinas da Junqueira chegou a ser noticiado diversas vezes nos anos seguintes, sendo a última notícia de intervenção datada de Março de 2021. No objectivo de preservar “o património histórico, natural e cultural, bem como a promoção da sua componente turística”, o município de Leiria anunciou um investimento de 300 mil euros na criação de um Centro de Interpretação Ambiental, Histórico e Cultural, um circuito interpretativo e na reparação das diversas estruturas em madeira degradadas, como passadiços, observatório de aves/ torre de vigia, mobiliário para lazer, entre outros.

Construções em lençóis de água

O problema de fundo do local é a água, argumenta Ana Carla Gomes, constatando que, não obstante as últimas requalificações, as tempestades do início de 2026 inundaram novamente o espaço, repetindo-se o ciclo de destruição que tem vindo a marcar as salinas. “As Salinas da Junqueira são um problema grave”, explica. “Não se pode construir ali; construções de cimento não, só podem ser de madeira, o que já se tentou. Fizeram-se uns passadiços e havia um edifício. Foi tudo abaixo”, devido às características húmidas do território.

A autarca adiantou ao JORNAL DE LEIRIA que há um projecto de reabilitação que envolve as associações da Sismaria, mas tem estado parado. A ideia “era fazer algo num material que se conseguisse suportar e fazer ali um parque pedagógico”, explica, “só que aquilo inundou tudo durante a tempestade”.

Grande parte da construção em Monte Redondo encontra-se em cima de linhas de água, algo que se tem revelado, sobretudo neste ano de tempestades, um problema crónico da freguesia. Ana Carla Gomes frisa que as salinas são responsabilidade da Câmara Municipal, instituição que “já investiu muito dinheiro” no espaço, para ver tudo degradar-se rapidamente devido à força dos elementos naturais. Pelo que, de momento, não há soluções à vista. “Não temos um projecto definido e não vamos investir agora”, até porque as tempestades deixaram vários problemas nas estradas que são mais prioritários de resolver.