Viver

Palavra de Honra | "Se eu encontrar... uma resposta definitiva, desconfio imediatamente. Gosto mais das perguntas"

5 set 2026 12:00

Joana Gonçalves, responsável de Relações Institucionais do CIBA, diz que já não tem paciência para cartazes, todos iguais, de uma fábrica dita Chat GPT/IA "Poderia tolerar entidades embrionárias ou associativas, mas em entidades oficiais? Poupem-me! Quanta magia havia num cartaz de festa popular com o Zé Café & Guida. Saudades da inteligência artesanal!" 

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Joana Gonçalves
Fotografia cedida por Joana Gonçalves

Já não há paciência... para cartazes, todos iguais, de uma fábrica dita Chat GPT/IA (eu sei é cliché!) mas não, mesmo! Poderia tolerar entidades embrionárias ou associativas, mas em entidades oficiais? Poupem-me! Quanta magia havia num cartaz de festa popular com o Zé Café & Guida. Saudades da inteligência artesanal! 


Detesto... inércia! Falta de respeito pelo Outro. Há muitos, muitos anos ensinaram-nos as coisas mais simples e essenciais para viver (eu sei, tantas vezes hoje em dia descuradas!): "Olá muito bom dia", "Por favor", "Obrigada!" - sim, eu sou daquelas pessoas que deseja "bom trabalho" a quem quer que seja, onde esteja. Para mim, e nas palavras de Adília Lopes: "Só gosto das pessoas boas; quero lá saber que sejam inteligentes artistas sexy, sei lá o quê; se não são pessoas boas; não prestam". A Educação é algo imenso, mas simples, fulcral para a convivência: a forma mais básica de reconhecer que alguém existe. 


A ideia... de que a Poesia poderia não existir destrói-me por dentro. Que tudo tem de ser útil, produtivo e servir para algo prático. Esta capacidade infinita de olhar e encontrar beleza, estranheza, espanto, tudo. De saber encontrar palavras que exprimem uma imensidão de sentimentos. Receio que percamos a capacidade de nos maravilhar e suspirar. Precisamos do que nos torna Humanos, do que torna a Vida muito mais habitável.


Questiono-me se... caminhamos para uma ausência total de pensamento e sentido crítico? Como nos relacionaremos daqui a 50 anos? Se iremos deixar de telefonar aos amigos com saudades ou simplesmente a pedir ajuda, para estarmos cheios de certezas e conversar com um qualquer chat bot. Lutemos por este tempo e pelos abraços inigualáveis de amigos, mesmo quando às vezes não sabemos (absolutamente) nada. 


Adoro... a Vida sem relógios, sem correrias (a Vida das Férias 🤣) - apesar de quem me conhece (sabe) que adoro trabalhar, sabe sempre muito bem não ter compromissos ou regras fechadas: não ter uma hora "certa" para comer, sair, dormir, para fazer o que seja. Adoro praia, mar e a sua poderosíssima e rejuvenescedora água salgada, ler, ler, ler. Já disse ler? Rabiscar e pintar. Estar com pessoas. Escutar. Falar. Descobrir o mundo. Adoro pessoas que se entusiasmam com pequenos detalhes - acho mesmo o entusiasmo uma das formas mais bonitas de inteligência.


Lembro-me tantas vezes... de pessoas com quem já me cruzei e hoje não falamos tanto, mas que foram essenciais no meu percurso e, mais ainda, na minha Vida. Das loucuras e horas infinitas de trabalho para fazer nascer coisas improváveis, muito especiais e (quase) impossíveis, aos olhos de alguns. Lembro-me de lugares e momentos, que continuam em mim e que um cheiro basta para lá voltar.


Desejo secretamente... ter mais Vidas e versões de mim. Artista. Aventureira-viajante. Escritora. Aprendiz permanente. 
Ter tempo infinito para ler todos os livros que desejo, criar e experienciar tantas e diferentes obras, visitar todos os sítios que quero, escrever todas as ideias que navegam nesta pequena cabeça e aprender sempre mais e mais.. aiiii aquela formação em Latim que sempre anciei, talvez um próximo Mestrado. Quem sabe? Repetir, certamente, um Concerto do Eddie Vedder. 


Tenho saudades... de ser exploradora e acampar em plenitude, chegar a casa e pronto! Agora é o que não fizemos, o que devíamos ter feito, o que vamos fazer, roupa lavar, tanta coisaaaaaaa sempre. Saudades da imensidão do tempo na infância. Da Família reunida em casa da avó materna. Daquele sábado de manhã - sem a confusão do Oeste - na indescritível praia de Kalafatis, na Grécia. Dos lugares carregados de História, onde sentimos uma brisa a sussurrar o passado. 


O medo que tive... nos dias a seguir à tempestade Kristin. Talvez incerteza, alguma desorientação e angústia, pela família, pelos amigos, por tudo. A nossa casa é, ou deveria ser, o espaço-abrigo, onde estamos mais seguros no mundo. Depois ficou outro medo, mais silencioso: o toque (mesmo que suave) do vento. 


Sinto vergonha alheia... deste consumismo desenfreado. Era ousadamente bonito quando algo se estragava. E o que mais importava era o tempo e o profissional que o consertava, numa segunda vida e oportunidade. Quando é que reparar deixou de ser uma coisa normal e passou a ser quase uma excentricidade?


O futuro... é amanhã, mas começa hoje. Sentir que dei sempre o melhor e fiz o que podia. Imagino-o mutável, sem a obrigação de escolher uma só profissão, uma só paixão/hobby, um só caminho, uma só versão de nós — há tanto para experimentar! E, nesse futuro ideal, gostava que a Arte fosse presença obrigatória na Vida de cada um: acessível e, sempre, com esse poder imenso transformador. Acho que um dia será assim, como escreveu Sophia de Mello Breyner: "quando eu morrer voltarei para buscar; Os instantes que não vivi junto ao mar". 


Se eu encontrar... uma resposta definitiva, desconfio imediatamente. Gosto mais das perguntas.


Prometo... (tentar!) terminar 5 projetos das 382 ideias que tenho. Continuar a dizer, mais vezes que não, sem culpa. A viver cada momento por inteiro e estar em cada um deles, sem pressas. Continuar a deixar o mundo um bocadinho melhor do que o encontrei. A não ser tão exigente comigo. A fazer os outros sorrir. 


Tenho orgulho... da incessante curiosidade que me persegue diariamente. Quero saber mais, experimentar outras coisas, aprender novos olhares/abordagens, perguntar a outros, descobrir tudo, tudo, tudo. Muito orgulho nas conquistas dos meus amigos, sempre! E, sobretudo, nas crianças que ajudo e vejo crescer diariamente através da experimentação e contacto com a Arte.