Viver
Palavra de Honra | "Se eu encontrar... uma resposta definitiva, desconfio imediatamente. Gosto mais das perguntas"
Joana Gonçalves, responsável de Relações Institucionais do CIBA, diz que já não tem paciência para cartazes, todos iguais, de uma fábrica dita Chat GPT/IA "Poderia tolerar entidades embrionárias ou associativas, mas em entidades oficiais? Poupem-me! Quanta magia havia num cartaz de festa popular com o Zé Café & Guida. Saudades da inteligência artesanal!"
Já não há paciência... para cartazes, todos iguais, de uma fábrica dita Chat GPT/IA (eu sei é cliché!) mas não, mesmo! Poderia tolerar entidades embrionárias ou associativas, mas em entidades oficiais? Poupem-me! Quanta magia havia num cartaz de festa popular com o Zé Café & Guida. Saudades da inteligência artesanal!
Detesto... inércia! Falta de respeito pelo Outro. Há muitos, muitos anos ensinaram-nos as coisas mais simples e essenciais para viver (eu sei, tantas vezes hoje em dia descuradas!): "Olá muito bom dia", "Por favor", "Obrigada!" - sim, eu sou daquelas pessoas que deseja "bom trabalho" a quem quer que seja, onde esteja. Para mim, e nas palavras de Adília Lopes: "Só gosto das pessoas boas; quero lá saber que sejam inteligentes artistas sexy, sei lá o quê; se não são pessoas boas; não prestam". A Educação é algo imenso, mas simples, fulcral para a convivência: a forma mais básica de reconhecer que alguém existe.
A ideia... de que a Poesia poderia não existir destrói-me por dentro. Que tudo tem de ser útil, produtivo e servir para algo prático. Esta capacidade infinita de olhar e encontrar beleza, estranheza, espanto, tudo. De saber encontrar palavras que exprimem uma imensidão de sentimentos. Receio que percamos a capacidade de nos maravilhar e suspirar. Precisamos do que nos torna Humanos, do que torna a Vida muito mais habitável.
Questiono-me se... caminhamos para uma ausência total de pensamento e sentido crítico? Como nos relacionaremos daqui a 50 anos? Se iremos deixar de telefonar aos amigos com saudades ou simplesmente a pedir ajuda, para estarmos cheios de certezas e conversar com um qualquer chat bot. Lutemos por este tempo e pelos abraços inigualáveis de amigos, mesmo quando às vezes não sabemos (absolutamente) nada.
Adoro... a Vida sem relógios, sem correrias (a Vida das Férias 🤣) - apesar de quem me conhece (sabe) que adoro trabalhar, sabe sempre muito bem não ter compromissos ou regras fechadas: não ter uma hora "certa" para comer, sair, dormir, para fazer o que seja. Adoro praia, mar e a sua poderosíssima e rejuvenescedora água salgada, ler, ler, ler. Já disse ler? Rabiscar e pintar. Estar com pessoas. Escutar. Falar. Descobrir o mundo. Adoro pessoas que se entusiasmam com pequenos detalhes - acho mesmo o entusiasmo uma das formas mais bonitas de inteligência.
Lembro-me tantas vezes... de pessoas com quem já me cruzei e hoje não falamos tanto, mas que foram essenciais no meu percurso e, mais ainda, na minha Vida. Das loucuras e horas infinitas de trabalho para fazer nascer coisas improváveis, muito especiais e (quase) impossíveis, aos olhos de alguns. Lembro-me de lugares e momentos, que continuam em mim e que um cheiro basta para lá voltar.
Desejo secretamente... ter mais Vidas e versões de mim. Artista. Aventureira-viajante. Escritora. Aprendiz permanente.
Ter tempo infinito para ler todos os livros que desejo, criar e experienciar tantas e diferentes obras, visitar todos os sítios que quero, escrever todas as ideias que navegam nesta pequena cabeça e aprender sempre mais e mais.. aiiii aquela formação em Latim que sempre anciei, talvez um próximo Mestrado. Quem sabe? Repetir, certamente, um Concerto do Eddie Vedder.
Tenho saudades... de ser exploradora e acampar em plenitude, chegar a casa e pronto! Agora é o que não fizemos, o que devíamos ter feito, o que vamos fazer, roupa lavar, tanta coisaaaaaaa sempre. Saudades da imensidão do tempo na infância. Da Família reunida em casa da avó materna. Daquele sábado de manhã - sem a confusão do Oeste - na indescritível praia de Kalafatis, na Grécia. Dos lugares carregados de História, onde sentimos uma brisa a sussurrar o passado.
O medo que tive... nos dias a seguir à tempestade Kristin. Talvez incerteza, alguma desorientação e angústia, pela família, pelos amigos, por tudo. A nossa casa é, ou deveria ser, o espaço-abrigo, onde estamos mais seguros no mundo. Depois ficou outro medo, mais silencioso: o toque (mesmo que suave) do vento.
Sinto vergonha alheia... deste consumismo desenfreado. Era ousadamente bonito quando algo se estragava. E o que mais importava era o tempo e o profissional que o consertava, numa segunda vida e oportunidade. Quando é que reparar deixou de ser uma coisa normal e passou a ser quase uma excentricidade?
O futuro... é amanhã, mas começa hoje. Sentir que dei sempre o melhor e fiz o que podia. Imagino-o mutável, sem a obrigação de escolher uma só profissão, uma só paixão/hobby, um só caminho, uma só versão de nós — há tanto para experimentar! E, nesse futuro ideal, gostava que a Arte fosse presença obrigatória na Vida de cada um: acessível e, sempre, com esse poder imenso transformador. Acho que um dia será assim, como escreveu Sophia de Mello Breyner: "quando eu morrer voltarei para buscar; Os instantes que não vivi junto ao mar".
Se eu encontrar... uma resposta definitiva, desconfio imediatamente. Gosto mais das perguntas.
Prometo... (tentar!) terminar 5 projetos das 382 ideias que tenho. Continuar a dizer, mais vezes que não, sem culpa. A viver cada momento por inteiro e estar em cada um deles, sem pressas. Continuar a deixar o mundo um bocadinho melhor do que o encontrei. A não ser tão exigente comigo. A fazer os outros sorrir.
Tenho orgulho... da incessante curiosidade que me persegue diariamente. Quero saber mais, experimentar outras coisas, aprender novos olhares/abordagens, perguntar a outros, descobrir tudo, tudo, tudo. Muito orgulho nas conquistas dos meus amigos, sempre! E, sobretudo, nas crianças que ajudo e vejo crescer diariamente através da experimentação e contacto com a Arte.