Sociedade
O seu filho não quer regressar à escola? Saiba quais são os sinais quando algo não está bem
"Não podemos querer eliminar a ansiedade, mas ensinar a lidar com ela", defende a psicóloga Inês Costa Pereira
Setembro é um mês todos os anos marcado pelo regresso às aulas, o retomar de rotinas e alterações significativas no dia-a-dia, tanto de adultos como de crianças e jovens. Embora, na maioria das vezes, tudo regresse com normalidade, pode haver sinais de que, afinal, algo não está bem. A partir de que momento é que as queixas devem ser consideradas mais preocupantes?
A professora Elisabete Martins, que lecciona espanhol ao 3.º ciclo e ao ensino secundário na Escola Secundária de Pombal, nota, todos os anos, algumas dificuldades nas primeiras semanas de aulas. “O regresso às aulas é sempre com plicado. Os alunos vêm de um período de férias e custa sempre o retomar do trabalho, refere.
Tudo acaba por ser normal, até mesmo uma certa ansiedade ou agitação mais acentuada dos estudantes, relacionadas com a adaptação a mais um ano lectivo. Uma das maiores dificuldades, segundo a professora, é a regula ção do sono que, enquanto não acontece, prejudica a concentra ção nas aulas.
“Nas férias, muitos deles não têm regras de sono. Deitam--se tarde e dormem até tarde e no início do ano lectivo nota-se a dificuldade, principalmente nos horários da manhã, devido ao sono desregulado. Notamos que eles estão muito apáticos ou que não têm um comportamen to normal dentro da sala de aula. Estão muito sonolentos, com um ar cansado”, partilha.
E, claro, os próprios jovens também fazem notar este des conforto. “Eles dizem: as férias acabaram e agora temos de voltar ao trabalho; tenho sono; dormia até tarde e agora tenho de acordar cedo… É habitual ouvir as queixas deles. Estamos sempre atentos a alguma situação que consideramos mais fora do normal”, adianta a docente.
Este ano, Elisabete Martins acredita que o arranque do ano lectivo será condicionado pelos problemas registados na correcção dos exames nacionais, que atrasaram o início das aulas. “Este ano foi atípico. O facto de ter minarmos o ano com a situação dos exames, que não correu da melhor forma, veio agitar o final do ano e vai condicionar o início. Houve alunos que não tiveram o resultado que esperavam, uns porque desapareceram as folhas ou porque houve algum erro. Isto não é benéfico para iniciar um ano lectivo com tranquilidade”, considera.
A responsável nota maiores diferenças de comportamento quando os jovens mudam de ciclo. “Por vezes, eles vêm da mesma turma desde o 7.º ano e, no 10.º, cada um vai para a sua área. Quer por ser um ciclo diferentes, ou por ser uma nova turma, eles têm de se integrar e, às vezes, é difícil. Até acontece ficarem com dúvidas em relação às escolhas que fizeram e acabam por mudar de curso na fase inicial do ano. A adaptação à turma é uma questão importante”, sublinha a professora.
Sempre que as queixas se tor nam exageradas e frequentes ou o comportamento não eviden cia melhorias, Elisabete Martins explica que os professores “es tão sempre atentos a alguma situação mais fora do normal” e, sempre que necessário, o aluno é encaminhado para o gabinete de psicologia da escola.
Ansiedade é normal até que ponto?
A psicóloga Inês Pereira Costa, que acompanha crianças e jovens, re conhece que o “regresso à rotina é mais difícil e é normal que alguns jovens fiquem mais nervosos, no início ou alguns dias antes de co meçar o ano lectivo”.
Contudo, entre as queixas normais, “importa perceber a existência de ansiedade, porque existe sempre, mas estar atento à duração e ao impacto que pode ter durante o ano lectivo”. E a que sinais devem os pais es tar atentos? Antes de mais, Inês Pereira Costa salienta que é impor tante não problematizar tudo, mas sim distinguir “quais são as reações normais das mais exageradas e intensas”.
Quando surgem sinais, manifestam-se de três formas distintas: emocionais, físicas e comporta mentais. Nos sinais emocionais, a psicóloga enumera “a preocupação excessiva, quando verbalizam o medo de ir para a escola, a preocu pação com os testes, notas e apre sentações orais”, além do “medo de desiludir pais ou professores e a preocupação com o que as outras pessoas vão pensar”. “Há maior irritabilidade, mais dificuldade em desligarem-se destas preocu pações.”
Porém, os sinais também podem ser físicos. Aqui, entram as “dores de barriga, dores de cabeça, dizem que estão enjoados, não têm fome ou têm fome a mais, têm dificuldade em adormecer, andam mais cansados”, ou, então, têm “palpitações, falta de ar, transpiração ou a cabeça à roda”.
São também visíveis, os sinais comportamentais, muitas vezes encarados como birras, mas que, quando sucessivos, podem ser preocupantes. “Choram antes de ir para a escola, na rotina da manhã, dizem que não querem ir, ou resistem em finalizar a rotina da manhã, porque sabem que a seguir vão para a escola. Têm dificuldade em separarem-se dos pais na chegada à escola. Pode haver isolamento dos colegas, deixam de participar em brincadeiras, ficam mais agarrados às assistentes operacionais”, especifica a psicóloga.
Inês Costa Pereira lembra que os pais devem “dar espaço à criança para falar”, evitando que as conversas se transformem “num interrogatório”, usando perguntas abertas. “Quando queremos aliviar a ansiedade, o primeiro instinto é dizer: não há motivo nenhum para te sentires assim. Estamos a desvalorizar o que a criança está a sentir”.
A especialista ainda menciona que, por vezes, são os pais, quando se dá a mudança de ciclo, que passam a ansiedade às crianças. “Quando uma criança vai do pré--escolar para o 1.º ciclo, é natural que os pais fiquem ansiosos e questionem se vai correr bem, mas podem passar para a criança essas dúvidas”.
“É importante não problematizarmos tudo”, diz, considerando que “os pais, melhor do que ninguém, conhecem os filhos”, e que é importante pedir ajuda quando os comportamentos mudam. Apesar de ainda faltarem psicólogos nas escolas, Inês Costa Pe reira refere que “as pessoas estão mais sensibilizadas a estas temáticas” e, em conjunto, é possível restabelecer a normalidade.
Como evitar a ansiedade do regresso?
São várias as estratégias que, aplicadas atempadamente, podem ajudar a atenuar alguma ansiedade nas crianças e jovens, associada ao regresso às aulas. Quanto à rotina, Inês Costa Pereira sublinha a importância de “preparar a transição”. “Em vez de esperar pelo primeiro dia de aulas, tentar progressivamente, uma ou duas semanas antes, retomar os horários”. Entre as estratégias, pode deitar as crianças, todos os dias, 10 minutos mais cedo e, com tempo, preparar o material escolar e conversar sobre o regresso, principalmente na mudança de ciclo. Quando a ansiedade de instala, deve incentivar estratégias de regulação, adaptadas à idade. “Tentar acalmar com respiração lenta fazer pausas, de vez em quando, as crianças levantarem-se e mexerem-se, utilizar técnicas de relaxamento, ouvir música, ter actividades extracurriculares”, indica. “Não podemos querer eliminar a ansiedade, mas ensinar a lidar com ela”. Se, aplicando estas estratégias, os problemas continuarem, a opção é pedir ajuda profissional.