Editorial
O que fazer com três milhões de turistas?
Com viagens aéreas mais acessíveis, a concorrência é global e uma boa parte das férias em Portugal traz gente de todos os continentes que inclui Peniche e Nazaré no roteiro, à boleia do surf
O saldo do turismo atingiu em 2025 o valor máximo desde 1948: 22 mil milhões de euros, a diferença entre receitas em Portugal e despesas dos portugueses fora de fronteiras. Mais do que o orçamento inteiro do Ministério da Saúde e três vezes o que o Estado gasta através do Ministério da Educação. No ano passado, entraram no País quase 30 milhões de turistas estrangeiros. Também os números de hóspedes nacionais têm crescido de ano para ano. O sector bate recordes e vale 16% do Produto Interno Bruto.
No reverso da moeda, estão os custos: destinos a rebentar pelas costuras, pressão sobre as maiores cidades e impactos noutras actividades económicas e no modo de vida dos residentes, por exemplo, via preços da habitação ou resposta dos serviços públicos, da recolha de resíduos aos transportes. Segundo o economista Ricardo Paes Mamede, 40% dos trabalhadores do turismo recebem o salário mínimo.
Com viagens aéreas mais acessíveis, a concorrência é global e uma boa parte das férias em Portugal traz gente de todos os continentes que inclui Peniche e Nazaré no roteiro, à boleia do surf. Só o Forte de São Miguel Arcanjo, com perspectiva sobre as vagas gigantes da Praia do Norte, soma três milhões de visitantes numa década.
Peniche e Nazaré competem pelo título da capital da onda. Em Peniche, o campeonato dos melhores do mundo e condições para todos os praticantes, iniciados ou profissionais; na Nazaré, o cenário em que os big riders desafiam o impossível.
Nesta edição do JORNAL DE LEIRIA, contudo, os autarcas de ambos os municípios recusam adormecer à sombra do que já existe. Tanto Filipe Sales (em entrevista) como Serafim António Silva (a propósito da reabertura do Museu Joaquim Manso) mostram ambição para colocar o surf no centro de uma dinâmica mais vasta, ligada com a identidade dos concelhos que gerem e capaz de coser o presente com o passado, de modo a sustentar o futuro.
O desafio passa por misturar visitantes, cultura e tradição, para que o turismo não seja imagem efémera nem deserto sem fruto.