Sociedade
Dois pares de botas, mil eiras e outros tantos kms para cartografar património de Ansião
Levantamento histórico
João Forte, geógrafo físico e docente do ensino superior, gastou as solas de dois pares de botas de montanha para, no último ano, percorrer, praticamente, todos os caminhos e carreiros do concelho de Ansião, num total de 1.700 quilómetros, a fim de concluir aquele que já é considerado, entre a comunidade científica, como o mais extenso trabalho de inventariação municipal realizado em Portugal.
Pegadas pré-históricas, formações cársicas como canhões, campos de lapiás, dolinas, charcas, fósseis, exsurgências (olhos de água), nascentes e minas de água, eiras, noras e engenhos, bases de moinhos e até pedreiras e antigas minas, provavelmente de tempos romanos, fazem parte deste levantamento.
"Não tenho a mínima dúvida que este trabalho vai ser um marco", afirma o investigador, sublinhando que o trabalho servirá para "abrir portas a nível académico" e tornar-se um exemplo a seguir.
A submissão dos resultados está prevista para este mês de Março, na prestigiada revista internacional Geoheritage (The International Journal of Geoheritage and Parks).
A descoberta mais mediática deste estudo promovido e contratado pelo município local aconteceu logo no primeiro dia dos 100 dias de trabalho no terreno, marcando-o de forma quase profética.
João Forte aponta o achado de pegadas de dinossauro como um dos momentos mais altos.
Após a limpeza do local, confirmou-se a existência de, pelo menos, dois trilhos distintos, num processo que contou com a validação do paleontólogo Silvério Figueiredo.
O inventário revela uma densidade patrimonial e antropológica impressionante.
"Já passei a barreira das mil eiras inventariadas", revela o geógrafo, explicando que, por vezes, fez descobertas a partir da tradição oral local ou mesmo de inusitadas referências onomásticas, como "rua do Minério".
"Um nome assim pode indicar, e indicou, a existência de extracções mineiras e depósitos de escórias cuja memória se havia perdido", conta.
As duas fórneas de Ansião
Largas dezenas de noras em Chão de Couce, bases de moinhos e antigas minas de gesso que funcionaram até à década de 80, juntam-se a uma lista que conta ainda com fórneas, imponentes anfiteatros naturais que também existem na serra de Sicó, apesar do seu desconhecimento geral.
"Temos uma que está localizada entre a serra da Ameixeira e a serra de Casal Soeiro, e outra entre a serra de Casal Soeiro e serra da Portela."
Até ao momento, foram referenciados 261 locais de interesse geológico, incluindo cascatas, campos de lapiás e grutas com mais de 60 metros de profundidade.
O esforço de inventariação foi realizado em condições extremas, com temperaturas altas e um episódio de insolação, contudo, nada o fez esmorecer, movido por "uma questão de orgulho ser de Ansião e querer fazer o trabalho mais completo".
O primeiro passo deste trabalho, o levantamento, foi concluído no final de Janeiro, e tem o potencial de servir — caso seja esse o entendimento da entidade promotora — para a criação de uma estratégia de geoconservação e promoção do território, como explica João Forte.
A informação permite classificar geo-sítios, incluí-los no PDM e potenciar o geoturismo e a vertente educacional com as escolas locais.
A meta para o geógrafo é clara: "Transformar este vasto conhecimento num motor de desenvolvimento sustentável e orgulho para o território de Ansião."