Entrevista

João Lázaro: “No meio disto tudo, o melhor e o pior das pessoas vêm ao de cima”

8 abr 2020 17:00

O psicólogo clínico João Lázaro considera que o isolamento social pode ser um motivo para reflexão e irá ajudar a perceber quem é relevante na vida de cada um e a dar importância ao imaterial

Em minha casa, estabelecemos um horário. De manhã é trabalho, à tarde temos liberdade, até para não ficarmos sufocados pela rotina
Ricardo Graça

Estamos a viver uma pandemia. De que forma esta situação está a afectar as nossas emoções?
Neste momento, o que é importante é não perdermos a nossa dignidade. Ou seja, devemos manter as rotinas de trabalho rigorosamente iguais àquelas que faríamos se estivéssemos a trabalhar. No meu caso, levanto-me à mesma hora, preparo-me, visto-me como se fosse sair e mantenho um horário de trabalho. Estou em casa com o meu filho e decidimos que a manhã é a parte laboral: ele estuda, eu trabalho, vou dando algumas consultas online. A tarde é para a cultura e para o lazer. Revemos filmes, lemos, pesquisamos coisas, conversamos, jogamos e no meio disto tudo ainda há as tarefas domésticas. Emocionalmente, estamos a pensar as coisas num novo paradigma. Seremos tão mais equilibrados quanto mais percebermos que não podemos ler o hoje com as mesmas premissas com que o líamos há 15 dias. Há um conceito que é o de equilíbrio homeostático. Por vezes, as nossas emoções são completamente contraditórias com aquilo que pensamos que devemos fazer. O nosso corpo depois reage a isso e torna-se fisiologicamente insuportável. Ficamos com dores de cabeça, dores de costas ou ansiosos. Se calhar, agora, é tempo de pararmos um bocadinho e de não estarmos sujeitos a uma imposição que é exterior a nós. Somos compelidos a consumir a toda a hora. É toda uma panóplia de compras de ocasião e de impulso. Além desta ditadura económica há uma espécie de ditadura da felicidade: todos temos de ser felizes e a tristeza não é uma coisa má. É o que nos faz desejar uma coisa que não temos. Há dias, falava com um jovem e ele queixava-se de não poder ir ao ginásio, de não poder estar com os amigos e de não tocar com eles. É muito curioso que, por vezes, confundimos intimidade com vida íntima. Podemos partilhar uma vida íntima. Partilhamos ocorrências do dia-a-dia, coisas muito circunstanciais, mas a intimidade é muito mais que isso. É uma coisa muito relacional. Hoje, é-nos retirado este tempo para a vida íntima, se calhar, estamos no tempo da intimidade. Podemos conversar com pessoas e reflectir sobre elas de uma forma muito mais próxima. Neste tempo de reclusão os relógios pararam efectivamente, mas o tempo não parou. O tempo é a mais-valia que retiramos do uso que fazemos dele. Nas conversas com adolescentes, sobre a utilização do seu tempo, insisto na política dos pequenos gestos. Por vezes, vale a pena pararmos um bocadinho e entendermos quantas fracções de dez minutos ignoramos por dia. Dez minutos à espera do autocarro, dez minutos a aguardar que tragam a bica, dez minutos a olhar para publicidade da televisão... São minutos completamente desperdiçados e que podem ser utilizados para ler duas ou três páginas de um livro, para responder a um email, para fazer um telefonema a um amigo, etc, etc. Estas pequenas fracções de dez minutos somadas ao longo de um dia é muito tempo. Numa semana é bastante e num mês é imenso.

Como se pode tirar partido deste tempo de isolamento?
Aproveitar para reflectir. Muitas vezes, ficamos pela forma das coisas e pouco pelo seu conteúdo. Agora há um tempo para pensar. Quiçá, este tempo de ausência da proximidade física dos amigos faz-nos pensar quem é que efectivamente nos faz falta. De quem é que sentimos mesmo saudades? Para quem é que precisamos ligar todos os dias para nos sentirmos próximos, mesmo estando distantes. É um tempo bom para reflectirmos sobre algumas coisas, como o primeiro 'r' da política ambiental: reduzir. Será que precisamos mesmo das coisas que consumimos? Agora não temos acesso a elas e continuamos a viver tranquilamente. É tempo de darmos mais importância ao não tangível do que ao tangível.

Como se aprende a lidar com um inimigo invisível, que não distingue raças, classes nem continentes?
Um medo sem nome é aquele que mais assusta, que leva o sujeito para uma dimensão mais espiritual. Entendermos que há coisas que não são visíveis, que não são mesuráveis, mas que existem. Este inimigo invisível é muito assustador. Por outro lado, esta situação também nos permite uma reflexão sobre nós próprios e não apenas através do espelho do outro.

Como lidar com o stress no contexto da pandemia da Covid-19?
É o tempo da tolerância, da empatia, de dizer ao outro o que estamos a sentir. Falando das crianças: não é altura para lhes dizer ‘vai-te deitar’, mas explicar-lhes que também estamos cansados e precisamos de estar um bocadinho cada um no seu canto. Esta preservação dos espaços individuais dentro de casa e do tempo para cada um é importante. Gosto de pensar a comunicação como um sistema orbital. Somos como um sol e à nossa volta há órbitas, onde colocamos as pessoas, as situações e as coisas. A órbita mais próxima de nós é a do sentir, depois há uma mais ampla do pensar e a outra, que vai até ao infinito, é a órbita do fazer. As pessoas que amamos estão no sentir; os nossos amigos, com A maiúsculo e cuja opinião levamos em consideração, estão na órbita do pensar e depois estão as coisas que faço. Aí não quero saber se as pessoas reparam mais ou menos. Há casais que me dizem que falam muito em casa, mas falar muito não é comunicar. Comunicar é diferenciar a mensagem. Posso estar a falar do que é que tu fizeste, do que é que penso sobre o que fizeste e o que é que sinto quando fazes isso. São tudo coisas diferentes. Estarmos muito próximos é propício a que as pessoas reaprendam a falar do que estão a sentir. As nossas emoções estão muito mais à flor da pele. É importante estarmos atentos ao que o outro pode estar a sentir perante o que está a acontecer. Quando temos crianças e elas ouvem as notícias, tranquilizá-las é ajudá-las a sentir.

As escolas fecharam mas os trabalhos mantiveram-se. Como se concilia dentro de meia-dúzia de paredes TPC, brincadeiras e teletrabalho?
Fazendo uma gestão concertada do tempo, mantendo as tais rotinas. Isto não é nenhuma solução mágica. Cada um tem de a ajustar. Em minha casa, estabelecemos um horário. De manhã é trabalho, à tarde temos liberdade, até para não ficarmos sufocados pela rotina. Há um tempo de obrigação e um tempo de lazer puro.

Há pais que desesperam porque os filhos não conseguem cumprir todos os trabalhos.
Se não se consegue fazer os TPC, lamento. Os miúdos, sobretudo os do secundário, têm-se queixado muito disso. Ontem um dizia-me: ‘tenho muito mais trabalho agora do que alguma vez tive. Hoje já estudei oito horas’. Isto pode ser sufocante. Lamento, mas este é também o tempo de algum relaxamento. Caso contrário, tudo isto se torna muito aprisionado. De repente é como se o exterior estivesse a invadir a nossa casa e isso nunca pode ser permitido. A nossa casa é o nosso castelo. Eu é que giro o que vem de fora e o que deixo entrar. Se deixo entrar esta catapulta de trabalhos, estou a assumir que tudo o que está de fora é mais potente que eu. Não. Eu é que defino as regras aqui dentro.

Como explicar aos mais pequenos o que é a Covid-19 e a necessidade do isolamento social, de não poderem estar com os amigos ou com os avós?
A regra fundamental é explicar que o tempo não parou, que isto é uma situação provisória e que daqui a alguns dias o nosso quotidiano vai ser retomado. É como se fosse o tempo da preparação para algo. Não sou católico, sou convictamente agnóstico, mas é um pouco como o tempo da Quaresma: vamos preparar-nos para a Ressurreição. Esta metáfora bíblica pode ser uma forma de explicar às crianças. Vamo-nos preparar e daqui a uns dias isto vai ser muito bom. Aliás, acredito que a forma como vamos usufruir, por exemplo, da cidade e dos espaços, há-de ser completamente diferente depois disto. Vai ser o tempo da ágora, da praça pública, do querermos estar uns com os outros. As pessoas vão querer voltar às coisas das quais sentiram falta. Vai ser um tempo de festa. Talvez as pessoas alicercem melhor as amizades e haja mais honestidade entre elas.

Num cocktail de alarmismo, medo, isolamento e quebra de rotinas, que impacto pode ter esta situação nas crianças?
Serão tão menos gravosas quanto mais seguros, previsíveis e confiáveis os pais forem nesta altura. A nossa relação com tudo o que está fora de nós, sejam pessoas, situações ou coisas, depende desta tríade. Explicando o que está a acontecer e como está a acontecer, sem mentir e sem criar falsas expectativas. Ser verdadeiro na informação não é dizer tudo. Há notícias que podemos filtrar, o que não quer dizer que se oculte, mas não precisam de estar permanentemente a ver o número de mortes. Este é também o tempo em que os adultos têm de ser confiantes em si próprios. Se isto estiver garantido não irá haver mal ao mundo.

Que métodos eficazes se podem aplicar para gerir a ansiedade dos mais novos?
O mais importante é o exercício físico. Não é ginástica, mas mexerem-se. Durante o dia é preciso tirar momentos, para eles fazerem qualquer coisa fisicamente para soltar toda a ansiedade e angústia que vai crescendo. É muito importante para manterem o seu equilíbrio homeostático. Por exemplo, fazer exercício ao som de música, pular, dançar, fazer jogos que nos obrigue a mexer. É um exercício de criação permanente, mas é muito importante as crianças terem um espaço físico para fazer coisas. Mexerem-se. Se o pai e a mãe tiverem de estar com eles, que o façam. Parem cinco ou dez minutos.

Como é que os casais podem manter a chama acesa, quando passam o dia em casa, por vezes, vestidos de forma demasiado informal e até descuidada e ainda lidam com as birras das crianças?
Não tirar o pijama é péssimo. As pessoas têm de continuar a embelezar-se e a sentir que são desejáveis para o outro. É o tempo para redescobrir outros paradigmas da sexualidade. Os casais falam muito da sua intimidade sexual, mas depois nunca têm tempo, estão muito cansados, estão stressados… e a sexualidade resume-se ao coito, o que é um bocado estranho. A sexualidade é todo o desejo, a atracção e o envolvimento para depois se chegar ao coito. Este é um belíssimo tempo para namoriscar e flirtar durante o dia. A coisa mais afrodisíaca que existe na sexualidade é o interdito. Não é por acaso que as pessoas fazem programas fora de casa para se sentirem mais próximas. Não há nada mais erótico do que no meio da multidão dar um apalpão ou mandar um código privado, que só nós sabemos o que quer dizer. É um momento bom para devolver à intimidade dos casais mais sexualidade e reduzir a noção de sexo. O sexo é a cereja no topo do bolo do erotismo. O erotismo é tudo aquilo que faço para que o outro se sinta desejado. As senhoras, se calhar, vão ter de repensar algumas coisas: ‘que chatice não fiz a depilação, não arranjei o cabelo’. Pode ser que comecemos a olhar uns para os outros para além do invólucro e mais para aquilo que nos fez querer atrair aquela pessoa.

“O carácter da Humanidade vai agora ser posto à prova”
 
João Lázaro_@Ricardo Graça
"A sexualidade é todo o desejo, a atracção e o envolvimento para depois se chegar ao coito. Este é um belíssimo tempo para namoriscar e flirtar durante o dia."


Este período pode resultar em mais casos de violência doméstica?

As situações de violência doméstica garantidamente vão aumentar de forma exponencial. Estar confinado a um espaço, 24 sobre 24 horas, é uma lente que vai aumentar a realidade. O meu velho e saudoso amigo Jaime Salazar Sampaio tinha uma frase: ‘pretextos é o que menos falta a quem os procura’. Agora não faltam pretextos para estarmos mais unidos, próximos uns dos outros e potenciar o que de melhor tem um casal, tal como, ao mais pequeno gesto, atitude ou tom de voz, espoletar uma discussão. Isto vai ser uma prova tremenda para a veracidade dos casais.

E os divórcios?
As relações amorosas são como uma casa. A conjugalidade é o plano de arquitectura. Para mim, esta casa tem um telhado, com duas águas: amor e o cuidar. Cuido de quem amo e quero ser cuidado por quem me ama. A palavra cuidar tem tanta ênfase como o amor. Cuidar não é tratar do penso ou ver se a pessoa está com febre. É cuidar do bem-estar permanente do outro. Depois, a casa tem dois pilares básicos: partilha do projecto de vida e a erotização. Em baixo, é como se houvesse três alicerces. A comunicação/metacomunicação: não é só ouvir o que me dizes sobre o que pensas, o que sentes e o que fazes, mas também, o que me queres transmitir quando dizes isso. A metacomunicação é ouvir para além do que é dito. Outro alicerce é a expectativa: como vamos gerir as nossas expectativas em relação ao outro e lidar com a frustração de não estarem a ser cumpridas. Por fim, o terceiro alicerce é a memória transgeracional. Transitamos inevitavelmente o modelo de conjugalidade dos nossos pais para a nossa conjugalidade. Este afastamento também nos permite reformular até que ponto é que somos capazes de peneirar o que é útil e queremos aproveitar em termos de modelo e o que, por vezes, contagiava a nossa forma de estar em casal, podendo agora ser escamoteada.

Alguns idosos são muito activos e estão a desesperar por estar em casa. Como ajudá-los a superar este momento e a diminuir a sua ansiedade?
Com os idosos a quem me cabe manter contacto, tenho tido o cuidado de lhes mostrar a falta que me fazem. Devemos mostrar que sentimos orgulho naquela pessoa, que foi importante para nós, porque somos muito daquilo que nos ensinou a pensar, a reflectir e a sentir. É tempo de quem é mais novo dizer aos mais idosos: ‘ensinaste-me isto, continuas a ser-me útil porque continuas a ser uma referência e aquilo que tu és como pessoa é importante para mim’. É aconselhável telefonar todos os dias e ajudá-los a descodificar as más informações.

Nos lares as visitas foram suspensas para evitar o contágio. Como se vão sentir aqueles que estavam habituados a ter visitas e agora não as podem ter?
Telefonar todos os dias. Tenho uma pessoa no lar e é o que faço. Antes não o fazia, porque ia visitá-la uma a duas vezes por semana, com um telefonema pelo meio. O importante é não ligar sempre à mesma hora, para não criar um padrão, porque, se por qualquer razão, esse padrão não é cumprido, gera-se uma ansiedade e pensam logo que pode ter acontecido alguma coisa. Converso um bocadinho... Usar o humor é uma coisa porreira. Fá-los rir e ficar bem-dispostos Rimo-nos da situação, brincamos, sou um bocadinho maroto e digo-lhe: ‘não andes aos beijinhos aos velhotes’.

Este isolamento pode contribuir para que algumas famílias percebam o que sentem os idosos ao estarem sozinhos, passando a dar-lhes mais atenção?
Todo o nosso paradigma relacional garantidamente vai ficar alterado. Um dos momentos mais bonitos que vivi na cidade de Leiria foi quando se realizou o Euro-2004. Era uma festa tremenda, mas era uma relação do toca e foge: muitos abraços, muitos beijos, muita cerveja, muita diversão, mas depois cada um ia para sua casa. O que está a acontecer agora é, como já referi, o tempo de pensar e de analisar o valor que se dá a cada momento, a cada coisa que se faz e que se tem e a cada pessoa com quem nos relacionamos. Isto vai obrigar-nos a mudar. Pensar que os idosos estão "entregues" no lar e alguém cuida deles é uma coisa muito básica. Cuidam da higiene, metem- -nos na cama e dão-lhes de comer. Mas as pessoas são um bocadinho mais do que isso. A ausência de todas estas coisas vai-nos obrigar a pensar que, se calhar, preciso mais de pessoas do que de coisas.

Há famílias que já estão a antever um possível desemprego e o cenário económico avizinha-se pior do que em 2008. Após a pandemia corremos o risco de uma avalanche de depressões, ansiedade e até suicídio?
Garantidamente. Espero que as pessoas ou as instituições financeiras tenham aprendido alguma lição com a crise de 2008 e percebido que não era por apertarem mais o cerco que as pessoas pagavam mais. Aliás, os bancos agora estão a oferecer moratórias. Em termos económicos haverá mais esperança. Obviamente, vai haver mais desemprego e mais empresas na falência, mas também acredito em Centeno [ministro das Finanças] quando diz que nunca estivemos tão bem preparados para uma crise como agora. No meio disto tudo, o melhor e o pior das pessoas vem ao de cima. Como o senhor dos hospitais privados, que disse: ‘sim senhora, ajudamos, mas o Estado tem de pagar tudo o que nos deve’. É um sentido de oportunidade fantástico. O homem continua a pôr o dinheiro à frente. É um exercício de avaliação do que somos como pessoas e o sentido de humanidade do que somos capazes.

Estas são alturas em que as pessoas revelam o melhor e o pior de si?
Completamente. O carácter da Humanidade vai agora ser posto à prova. Ou somos capazes de ser solidários uns com os outros e não perdemos a memória do holocausto ou, pelo contrário, é o salve-se quem puder. É o pânico ou o mau carácter a revelar- se quando se vêem pessoas a ‘limpar’ prateleiras no supermercado sem precisar? É mau carácter e é não pensarmos na necessidade do outro. É uma questão de humanidade. Se tu precisas eu partilho contigo o que tenho. Estamos todos no mesmo barco.

No fim da pandemia, sairemos mais fortes e com um capital de aprendizagem colectiva para o futuro?
Como dizia Nietzsche, o que não nos mata torna-nos mais fortes. Garantidamente, a forma como interpretamos a realidade à nossa volta vai ficar completamente alterada. Todo o pensamento filosófico, artístico, cultural, social e económico, o paradigma do mundo vai mudar completamente. Provavelmente, é tempo de corrigir erros e de perspectivar um futuro mais concertado às necessidades dos que estão mais frágeis.

 

 

 

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