Entrevista

Entrevista | Sónia Gonçalves Pereira: “As bactérias são muito mais espertas do que nós”

23 mai 2019 00:00

Considera que falta uma estratégia nacional para a investigação e defende maior educação no uso do antibiótico. Lamenta que a investigação para novos fármacos tenha parado, mas acredita que é possível vencer a batalha com as superbactérias

Entrevista parte 2

Tem-se verificado alguma resistência aos antibióticos. Existem novas bactérias ou aprenderam a sobreviver ao ataque dos antibióticos?
Elas aprenderam porque são muito mais espertas do que nós. Para fazer uma analogia muito óbvia: uma bactéria vive 20 minutos, logo é este o tempo que tem para aprender, e nós temos uma vida inteira. As bactérias são as mesmas, mas nós somos diferentes, mesmo pertencendo à mesma espécie. As bactérias também pertencem à mesma espécie, mas vêm de ambientes diferentes, são sujeitas a stresses diferentes, logo têm comportamentos diferentes. É o que acontece com as bactérias hospitalares. Como estão sujeitas ao stress que lhes é imposto por permanente desinfecção e utilização de antibióticos, leva a que sejam as superbugs (superbactérias) e no hospital temos bactérias que resistem aos antibióticos, o que torna difícil o tratamento. Criámos o primeiro antibiótico há um século, o que revolucionou o mundo. Morríamos aos 40 anos e hoje a esperança média de vida quase que duplicou. Isto deve- -se aos antibióticos, mas também a medidas de higiene. Quando se descobriram os antibióticos ficou-se tranquilo, porque passou a existir uma arma para matar a ‘bicharada’.

Depois dessa descoberta houve algum ‘desleixo’ na investigação de novos antibióticos? 
Não será desleixo, mas houve este diferencial... Existe uma grande preocupação da parte da indústria farmacêutica em encontrar medicamentos para fazer face a doenças como o HIV, cancro ou outras mais mortais... E essas doenças são estanques. Não quer dizer que não seja preciso descobrir novas terapêuticas. O que aconteceu foi que se descobriram os primeiros antibióticos e o pessoal ficou todo contente. Nos primeiros anos houve um grande investimento da indústria farmacêutica para novas moléculas e de repente parou. Então há um hiato de muitos anos em que não surgiram novas drogas antibióticas, mas as bactérias continuaram a ser sujeitas ao estímulo. Elas querem o mesmo que nós: sobreviver, não lhes podemos levar a mal. Nós é que lhes vamos impondo stress e elas vão respondendo e encontram defesas para as moléculas que lhes estamos a "oferecer" para as tentar matar. Elas fazem isto de um dia para o outro. E nós de um dia para o outro não descobrimos uma nova molécula. Este desinvestimento da indústria farmacêutica esqueceu-se de pensar que as bactérias são inteligentes.

Qual a solução para terminar com a multi-resistência?
Educar na utilização correcta dos antibióticos, educar a sociedade e educar os prescritores, que são os médicos. Eles fazem o melhor que podem, com as ferramentas que têm, mas também têm de ser educados. Toda a sociedade tem de ser educada para a utilização adequada de antibióticos . Também é preciso descobrir novas moléculas para poder combater os organismos que já estão resistentes a todas as moléculas. Julgo que o mais difícil será educar, embora saibamos que demora 20 anos a encontrar novas moléculas e não podemos ficar à espera este tempo todo. Infelizmente, os antibióticos são muito mal usados. Ainda há muito esta cultura: estou constipada tomo um antibiótico. A culpa não é de ninguém, é de todos. Estou a tirar o curso de medicina, porque tenho interesse nesta parte dos antibióticos e pensei que a melhor forma para encontrar soluções é conhecer todos os lados. Gostava muito de poder conseguir um instrumento de pesquisa muito rápido para identificar os micro-organismos. Agora, prescrevemos um antibiótico na suposição de se tratar de uma determinada bactéria. Para saber, temos de fazer as análises hoje e obter rapidamente o resultado. O que acontece actualmente é que só se sabe daqui a três dias ou até uma semana depois e não podemos deixar a pessoa sem medicação. Gostava muito que houvesse um aparelho que desse esta resposta no imediato. Esse é um dos meus objectivos enquanto investigadora. Além da doença celíaca que quero muito estudar, queria ter esta segunda linha de investigação dedicada à resistência a antibióticos no diagnóstico.

“Nos primeiros anos houve um grande investimento da indústria farmacêutica para novas moléculas e de repente parou. Então há um hiato de muitos anos em que não surgiram novas drogas antibióticas, mas as bactérias continuaram a ser sujeitas ao estímulo. Elas querem o mesmo que nós: sobreviver, não lhes podemos levar a mal”

A introdução de antibióticos nos alimentos contribuiu para essa multi-resistência?
Claro que sim. Neste momento, é mais fácil controlar a resistência a antibióticos pela via veterinária do que pela via da saúde humana. Na veterinária, os antibióticos são usados como factores de crescimento e isso tem implicações: fica no alimento que comemos e, por isso, podemos adquirir resistências a antibióticos por essa via. Depois há disseminação no ambiente. As bactérias são inteligentíssimas, porque não só adquirem capacidade de resistirem a antibióticos, como transmitem esse conhecimento ao g

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