Entrevista

Entrevista | Eugénio Sequeira: "Se não mantivermos os montados a Sul, o deserto do Sahara chegará ao Tejo"

26 jul 2018 00:00

Engenheiro agrónomo, defende que quem não limpa os terrenos “deve ser expropriado” e alerta para os riscos da agricultura intensiva que se está a fazer no País.

Maria Anabela Silva

No recente fórum da CIMRL organizado pelo JORNAL DE LEIRIA sobre ordenamento do território, afirmou que o desordenamento é “um cancro da sociedade”. Em Portugal, ainda tem cura?

Se actuarmos a tempo, sim. Agora, se o que está a acontecer com a dita floresta lenhosa (pinhal e eucaliptal) e com o abandono da agricultura - sobretudo a Norte do Tejo - associado ao flagelo dos incêndios, continuar, chegaremos a um ponto sem retorno. Além de se perder terra, perde-se fertilidade dos solos. Isso é irrecuperável. Para se ter uma ideia, são necessários sete mil anos para repor o solo perdido com as asneiras da campanha do trigo de Salazar. O que se está a passar com a floresta de uso múltiplo no Sul é completamente diferente. Não arde.

Por que é que não arde a floresta a Sul?

Porque é gerida. As propriedades são grandes. No Norte, ao fazer-se o liberalismo, não se teve em conta a dimensão mínima necessária e o emparcelamento. A propriedade está de tal forma dividida, que se torna inviável rentabilizá-la e fazer uma gestão correcta e ordenada. No Sul, o liberalismo não teve as mesmas consequências nem houve o problema do abandono do morgadio. Aqui, o problema é diferente. As alteração climáticas afectam primeiro as terras secas. O que se está a passar no Sul é como se fosse um fogo que arde sem se ver. No Norte arde, morrem pessoas e o Governo é politicamente obrigado a tomar opções. No Sul, ainda não morrem pessoas. Mas morrem sobreiros e azinheiras. E o montando é uma defesa contra o avanço do deserto. Se não mantivermos os montados a Sul, o deserto do Sahara chegará ao Tejo.

Qual a probabilidade disso acontecer?

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