Opinião
Velocidade furiosa
Pertenço, já se percebeu, a uma geração suficientemente estúpida para ter comprado discos sem conhecer nenhuma das canções que lá estavam. Uma capa esteticamente apelativa era um chamamento suficiente para partirmos à descoberta. Chegávamos a casa, colocávamos o vinil no prato e ouvíamos. Inteiro
Não vou criticar, venho apenas aqui constatar um mal que é um sinal dos tempos e do qual também padeço em parte. Vivemos numa época extraordinariamente sofisticada em que podemos falar com alguém que está a 10 mil quilómetros de distância, saber o que comeu ao pequeno-almoço uma pessoa que nunca vimos na vida e descobrir, em três segundos, quem é o novo namorado de uma celebridade de que nunca ouvimos falar. Tudo isto enquanto estamos sentados na sanita. É o progresso, dizem.
Basta uma fila no supermercado para sacar do telemóvel. Cinco minutos num café e lá estamos nós a deslizar o dedo pelo ecrã como quem procura petróleo. Iniciamos o almoço e, antes de o terminarmos, já recebemos cinco notificações, vimos três vídeos de gatos e alguém nos explicou, em 23 segundos, como enriquecer sem trabalhar. Já não conseguimos simplesmente estar.
Na música, que é a área que mais me interessa, já não se ouvem discos: consomem-se faixas. De preferência curtas, imediatas e suficientemente explícitas para não obrigar a pensar. Se uma canção não conquistar nos primeiros segundos, muda-se, sem se chegar a perceber que, efetivamente, era uma canção do caraças que aí viria pela frente! Pior: se uma banda não aparece no motor de busca de um serviço de streaming, é porque “não existe” (e conheço tantas dessas que “não existem”).
Pertenço, já se percebeu, a uma geração suficientemente estúpida para ter comprado discos sem conhecer nenhuma das canções que lá estavam. Uma capa esteticamente apelativa era um chamamento suficiente para partirmos à descoberta. Chegávamos a casa, colocávamos o vinil no prato e ouvíamos. Inteiro. E, quando não se gostava à primeira, insistia-se até a música surtir efeito em nós.
Hoje queremos tudo instantaneamente. A descoberta em alta velocidade. A emoção em formato vertical. O problema, porém, não é a tecnologia. O problema somos nós, que já não conseguimos suportar o intervalo entre uma coisa e outra sem o preencher imediatamente com outra coisa.
O mais irónico é que passámos a ter acesso a praticamente tudo sem que verdadeiramente conheçamos a fundo o que quer que seja. Descobrir e dissecar exige tempo. Exige erro. Exige insistência. Exige audácia. Exige silêncio. Exige que desativemos as notificações e, para descobertas mais profundas e densas, que nos desliguemos do mundo. A bem da nossa sanidade mental. E do bem-estar em geral. Respiremos, expiremos… Repitamos.