Opinião

Urge colocar o território no centro da decisão

27 abr 2026 21:30

"Construir para resistir implica reagir a eventos extremos, mas sobretudo antecipação"

Arecente Presidência Aberta de António José Seguro nos territórios afetados pelas tempestades trouxe um sinal político relevante: ouvir no terreno, compreender impactos e começar a estruturar respostas num contexto em que os fenómenos extremos deixaram de ser excecionais para passar a integrar um novo padrão climático.

A reunião com especialistas de áreas como a energia, as telecomunicações, a agricultura e as florestas, aponta precisamente nesse sentido, mas levanta uma exigência maior: transformar a auscultação em decisão. Ao longo dos últimos anos, incêndios, cheias e tempestades acumularam evidência suficiente para obrigar a uma mudança de paradigma. Não basta reforçar a proteção civil ou melhorar a resposta imediata.

O verdadeiro ponto crítico está no modelo de construção e na forma como se planeia o território. A questão central já não é apenas quanto custa construir, mas quanto custa continuar a construir sem incorporar risco. Materiais, normas técnicas e exigências de resistência têm de passar a refletir um clima mais instável, mesmo sabendo que isso pressiona um mercado onde o acesso à habitação já se encontra distante dos rendimentos médios.

É neste ponto que emerge uma questão inevitável: quem suporta o custo da resiliência? A resposta não pode ser difusa. Cabe ao Estado assumir um papel estruturante, revendo códigos de construção, criando incentivos e garantindo que a habitação pública não perpetua vulnerabilidades. Construir hoje ignorando o clima de amanhã é transferir custos para o futuro, com impacto direto nas famílias, nas finanças públicas e na própria coesão territorial.

Mas esta transformação não se faz apenas por via normativa. Ela exige conhecimento, capacidade técnica e articulação entre atores. As instituições de ensino superior, como o Politécnico de Leiria, têm aqui um papel relevante na produção de conhecimento aplicado, na definição de soluções e na construção de respostas que resultem de uma articulação efetiva com o Estado, empresas, associações e cidadãos.

Construir para resistir implica reagir a eventos extremos, mas sobretudo antecipação, planeamento e decisão. Num território que já mudou, adiar decisões é perpetuar vulnerabilidades. A questão que se impõe é clara: quem assume a responsabilidade de dar o próximo passo e de garantir que o que se constrói hoje não será o problema de amanhã?