Opinião
Trocado por miúdos | Ensinam-nos tudo, menos a pensar?
Quantos jovens terminam a escolaridade sem perceber como funciona um imposto, o que provoca a inflação ou como se financia o Estado? E quantos conseguem distinguir um argumento fundamentado de uma promessa eleitoral construída apenas para conquistar votos?
Passamos grande parte da juventude dentro de uma sala de aula. Aprendemos equações, história e gramática. Somos preparados para o mercado de trabalho. Mas saímos da escola verdadeiramente preparados para compreender o mundo em que vivemos?
Quantos jovens terminam a escolaridade sem perceber como funciona um imposto, o que provoca a inflação ou como se financia o Estado? E quantos conseguem distinguir um argumento fundamentado de uma promessa eleitoral construída apenas para conquistar votos?
Não desvalorizo as disciplinas tradicionais nem os professores. Mas de que serve preparar-nos para exames sem nos preparar igualmente para a vida adulta?
Portugal já inclui educação financeira e cidadania no sistema educativo. A Filosofia também integra o percurso de muitos alunos. Mas colocar conteúdos num programa não significa ensinar a utilizá-los. O sucesso da educação não deveria medir-se apenas pelo conhecimento que conseguimos reproduzir, mas pela capacidade de pensar autonomamente.
É aqui que a literacia financeira e a literacia política se encontram. Quem não compreende economia dificilmente avalia promessas de aumentos salariais, reduções de impostos ou subsídios. Quem desconhece o funcionamento das instituições terá dificuldade em distinguir aquilo que um governante pode fazer daquilo que simplesmente promete.
E é por isso que a filosofia importa. Não apenas para conhecer Platão ou Aristóteles, mas para questionar, argumentar e rever convicções. Pensar criticamente não é desconfiar de tudo. É exigir razões antes de aceitar conclusões.
Perante isto, surge uma pergunta desconfortável. Ao longo de décadas, sucederam-se governos, ministros e reformas educativas. Todos dizem querer preparar os jovens para o futuro. Mas será que damos a mesma prioridade à formação de cidadãos capazes de questionar o próprio poder?
Não precisamos de acreditar numa conspiração para reconhecer que a falta de conhecimento pode ser politicamente conveniente. É mais fácil vender soluções milagrosas a quem desconhece a complexidade dos problemas. É mais fácil transformar discussões económicas em confrontos emocionais quando faltam ferramentas para analisar argumentos. E é mais fácil conquistar apoio com slogans quando ninguém exige explicações.
Esta tentação não pertence a uma ideologia. Atravessa o exercício do poder. A política democrática precisa de convencer, mas, quando a persuasão substitui a explicação, o cidadão deixa de ser tratado como alguém que deve compreender e passa a ser visto apenas como alguém que é preciso conquistar.
Naturalmente, a responsabilidade não é exclusiva da escola. Famílias, comunicação social e cidadãos também têm um papel. Mas cabe ao Estado garantir a todos os instrumentos para exercer a liberdade com consciência.
Não é preciso abandonar a matemática ou a história para ensinar economia, política e pensamento crítico. Uma escola que ensina a calcular, mas não ajuda a interpretar as contas públicas, deixa uma parte importante da formação por cumprir.
No fundo, esta é uma questão sobre a qualidade da democracia. Não basta dar aos cidadãos o direito de escolher quem governa. É preciso dar-lhes condições para compreender o que está em causa, questionar decisões e exigir responsabilidades.
Uma sociedade livre não se constrói apenas com pessoas que conhecem as regras. Constrói-se com pessoas capazes de perguntar por que razão essas regras existem.
A escola não pode limitar-se a formar futuros trabalhadores, consumidores e contribuintes. Tem de formar cidadãos livres. Porque o verdadeiro perigo para uma democracia não é um cidadão que faz perguntas difíceis. É uma sociedade que deixou de as fazer.