Opinião

#Salvadorable

19 mai 2017 00:00
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Alexandra Azambuja, publicitária

Não há explicação para o mistério. E a epifania dos irmãos Sobral é assim que deve continuar: inexplicável.

A magia é para sentir, arrepiar peles nuas, tocar corações, colocar sorrisos apalermados nas bocas de milhões de pessoas que ouvem "Amar pelos dois" sem perceber patavina do poema cantado em português, que fala afinal daquilo que nos une ao menos uma vez na vida: a queixa mansa de quem lamenta baixinho um amor longínquo, um amor irremediável, um queixume melancólico, a promessa de quem atravessado de um lado ao outro pela seta mortífera do amor para sempre, promete fazer de um único coração o coração de dois.

E de quantas partes é feita a magia? Luísa Sobral faz a parte invisível da magia que é criar no espaço onde antes havia o silêncio, esta coisa extraordinária feita de notas musicais e palavras. Em português, a língua doce.

E se as palavras já existiam todas e as notas musicais também, enredá-las umas nas outras, atá-las para sempre nesta tessitura extraordinária é como fabricar estrelas: impossível de explicar, obrigatório ouvir. Depois o irmão Salvador.

De quantas coisas nos salvou este rapaz? Uma lista interminavel de atavismos morreu com este intérprete.

A começar pelas certezas de programadores, editores, decisores e outras profissões que soam como horrores, que nos condenam a todos há décadas à ditadura da playlist, do estafado formato televisivo, do garantido sucesso, do mais do mesmo, do temos de darlhes o que eles gostam, do popularucho, da banalidade hedionda a fingir-se arte– telelixo, audiolixo, livrolixo.

Salvos também do medo de ser genuínos e simples, de sermos os pobrezinhos do festival, da mania festivaleira de cantar em inglês, de sermos Maria vai com as outras, entupidos em brilhos, coreografias ridículas e fogo-de artifício a soar a falso.

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