Opinião

Promessas por catálogo

22 fev 2018 00:00

O encontro entre o imaginário e a realidade nem sempre era fácil. E o arrojo da imaginação sucumbia sempre à austeridade do corte dos anos 70.

Os dossiers com as amostras dos tecidos da estação chegavam pontualmente às quintas-feiras. O carteiro assomava cansado ao limiar do portão com o peso das caixas atadas com cordel de sisal. A encomenda chegava do Porto.

O logotipo era solene, quase aristocrático - Armazéns Marques Soares. Dentro das caixas amontoavam-se umas boas dezenas de catálogos cheios de pequenos retalhos de tecido - as fazendas de escocês para o Inverno, as cachemiras para os sobretudos destinados a uma quase vida, as cambraias, as sedas e as popelinas para as blusas ocasionais.

E o catálogo dos tecidos infantis em que fui todas as personagens dos livros que li durante a infância. A moda imaginava-se a partir de quadradinhos de pano. E ao colo da minha mãe aprendi que, tal como na roupa, a qualidade de uma vida depende da matéria-prima e do recorte que procuramos dar-lhe.

Seguia-se a ida à costureira com a pré-selecção de quadradinhos de pano já feita. Nos figurinos procurava-se não o que lá estava, mas aquilo que se levava imaginado.

O encontro entre o imaginário e a realidade nem sempre era fácil. E o arrojo da imaginação sucumbia sempre à austeridade do corte dos anos 70.

Seis metros de escocês para o vestido rodado, cinco metros de fazenda de lã para o casaco a três quartos e meio metro de veludo azul-escuro para um certo toque requintado que a qualidade da fazenda do casaco pede.

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