Opinião

Perscrutemos

28 abr 2026 10:24

Foi este o início da discussão mais estranha que já mantive com alguém. Vale a pena contar-vos, porque creio que jamais terão vivenciado o verbo perscrutar gritado a dois palmos do vosso nariz

Pára de me perscrutar! Foi este o início da discussão mais estranha que já mantive com alguém. Vale a pena contar-vos, porque creio que jamais terão vivenciado o verbo perscrutar gritado a dois palmos do vosso nariz, com chispas de raiva. E de saliva, porque é palavra que puxa o perdigoto. Trata-se de uma experiência memorável, digo-vos, devia ser comercializada em formato de voucher.

Começou assim: ele chegou a casa, trocou um miau com o gato, largou o casaco onde sabe tão bem que eu não aprovo. Calou o clássico grunho sobre o jantar se adivinhar de restos, apreciei a cortesia. Porque seriam efectivamente restos o que poria na mesa. Restos de mim, principalmente. Da tolerância mansa com que ainda tentava alimentar quem já não tinha estômago para nós. E eu sem fome.

O plano do meu ataque preliminar, já batido, era abrir uma garrafa de vinho bom, que afastasse o foco do cheiro a arroz malandro que faltava ali. Com sorte, ele interessava-se ao ponto de discorrer um chorrilho de apreciações pretensiosas, com as quais eu estava muito de acordo porque não ouvia. E a travessa requentada da véspera passava a dano colateral, suavizava a proeminência e perdia o protagonismo na mesa triste.

Foi então que, antes ainda do microondas soar o plim, arremessei a pergunta que cortou com dolo o sermão das notas amadeiradas - Olha lá, o texto que escreveste sobre a liberdade no teu blog, era sobre nós, não era? Cravos à parte, a revolução que querias mesmo ver era aqui, a esta mesa de restos, não era? Eu percebi, há um abril pequenino, doméstico, no teu horizonte. Vais cumpri-lo, mais março menos maio, não vais? Sorri até, tinha achado o texto corajoso e cheguei a apaixonar-me um bocadinho outra vez. Mas ele fez salpicar o vinho na surpresa da minha lucidez tão rara. Esbugalhou os olhos fartos de me ver ali, num regresso repetido sem nada de novo para pôr na mesa. Gritou.

Pára de me perscrutar!

Eu perscruto quem eu quiser.

Se me perscrutas nesse tom, não julgues que fico a ouvir-te

Eu perscrutarei o que tiver de perscrutar, não me calas.

Perscruta para aí sozinha, então. Nisso é que tu és boa, a perscrutar os outros em vez de te perscrutares a ti!

A porta bateu, o microondas ficou aberto, o casaco desapareceu do sítio onde é sabido que eu não aprovo. Nunca uma nódoa disforme numa toalha branca me trouxe tamanha paz. Perdigotos à parte, acabo de descobrir a minha nova palavra preferida de todo o léxico esgrimível:

pers-cru-tar.