Opinião

Palavras com eco

13 jul 2026 21:00

As férias passam depressa. As conversas ficam. E talvez não exista investimento mais simples, acessível e com maior retorno para o futuro de uma criança do que o tempo que lhe dedicamos através das palavras

Chegaram as tão aguardadas férias grandes, uma pausa justa e mais do que merecida.

Numa época em que competir pela atenção das crianças e dos jovens nunca foi tão difícil, a azáfama escolar torna-se ainda mais intensa e exigente.

As minhas férias grandes já lá vão. Contudo, reconheço nos jovens que acompanho o alívio que sentem nesta altura do ano.

Há quem queira mesmo saber quantos são os dias livres da ditadura do relógio que, até aqui, marcava o ritmo.

O tempo está agora mais vazio, mas tão cheio de tempo. O que fazer com ele?

Tenho uma proposta simples: conversar.

Parece pouco, mas poucas atividades são tão poderosas para o desenvolvimento de uma criança.

A investigação em neurodesenvolvimento diz-nos que as competências linguísticas constituem o alicerce das aprendizagens escolares e não só.

A compreensão da leitura, por exemplo, só existe com linguagem; a socialização e a autorregulação comportamental, que dependem da capacidade de recorrer ao discurso interno, também nela assentam.

A linguagem permite-nos pensar. E não se esqueçam que falar não é o mesmo que ter linguagem.

A fala é apenas uma das componentes da linguagem e envolve sobretudo a dimensão fonológica. A linguagem vai muito além: inclui vocabulário, construção de frases, significados, gramática e a capacidade de usar a comunicação de forma adequada em diferentes contextos. O que fazer então?

Jogos de adivinhas, por exemplo. Estimulam a criança a procurar a palavra certa, a descobrir categorias e a estabelecer relações entre conceitos, sendo uma forma extraordinária de aumentar o vocabulário.

Ler uma história também não termina na última página.

Conversar sobre as atitudes e os sentimentos das personagens ou imaginar o que acontecerá a seguir são exercícios que desenvolvem compreensão, inferência, pensamento crítico e linguagem.

As férias passam depressa. As conversas ficam. E talvez não exista investimento mais simples, acessível e com maior retorno para o futuro de uma criança do que o tempo que lhe dedicamos através das palavras.