Opinião
O ópio do povo
Talvez não saibamos perder, ou melhor, talvez estejamos demasiado habituados à perda, a não cumprir com metas e potencial
É difícil e penoso ser Português e desfrutar de futebol tal como ele é: um jogo.
Um jogo onde se ganha, perde ou empata.
Apoiar a seleção, neste sentido, tem sido um verdadeiro pesadelo.
A semana depois do consentido e frustrante empate contra o Congo assemelhou-se a uma violente viagem verbal , quase “rimbaudiana” aos infernos mais profundos e vis da maledicência nacional, com o CR7 (que esta semana descansou por causa dos golos ao Uzbequistão - quando escrevo este artigo ainda não se jogou contra a seleção colombiana) à cabeça, numa espécie de campeonato mundial de moralismo e ingratidão, em que somos exímios e tetra campeões, sem espinhas ou hesitações.
Perceber esta tendência que todos temos não do copo meio cheio ou vazio, mas do copo partido contra a parede, foi missão de vultos como Pessoa, Unamuno, Quental e Laranjeira (Manuel), tarefa bonita mas inconclusiva e, demasiadas vezes, com um fim trágico.
Talvez não saibamos perder, ou melhor, talvez estejamos demasiado habituados à perda, a não cumprir com metas e potencial. Talvez o nosso problema com o sucesso seja mesmo um problema com o sucesso, o de não saber lidar com o facto de que a nossa nação produz fenómenos musicais, desportivos, científicos, culturais e tecnológicos num contexto de extrema adversidade e num ambiente demasiado hostil.
Eu não me importa se Portugal não for campeão do mundo. Ou se não passar à fase seguinte. O que eu quero é que não se faça um drama acerca disso, cozendo vivo os poucos heróis e exemplos que temos no caldeirão da nossa profunda insignificância mundial, como país de serviços, característica da qual temos culpa e que, depois da semana passada que passámos enrolados em farpas, talvez seja o que merecemos.
Afinal o nosso desporto nacional não é o futebol. É a má-língua. O nosso mais reivindicado e português direito.