Opinião

O "Nobel da literatura"

20 out 2016 00:00
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Margarida Varela

A questão que se coloca é saber se tal justificação pode ser aceite para atribuição de um prémio Nobel da Literatura

Os prémios Nobel foram criados pelo químico e industrial sueco, Alfred Nobel, que no seu testamento, redigido em 1895, estabeleceu que fosse instituída uma fundação a quem competiria atribuir anualmente prémios àqueles que, de alguma forma, houvessem contribuído para o bem da Humanidade, no domínio da física, química, fisiologia ou medicina, literatura e paz.

Em cumprimento do estabelecido no testamento foi criada em 1900 a Fundação Nobel, tendo sido conferidos os primeiros prémios em 1901, sendo, nesse ano, o Nobel da Literatura atribuído a Prudhomme.

Vem esta pequena introdução a propósito da atribuição do prémio Nobel da Literatura a Bob Dylan, que tem gerado alguma controvérsia. A Academia justificou a atribuição do prémio pelo facto de Bob Dylan “ter criado novos modos de expressão poética no quadro da tradição da música americana”.

A questão que se coloca é saber se tal justificação pode ser aceite para atribuição de um prémio Nobel da Literatura. Facto é que sempre concebi este prémio como uma “homenagem” a um escritor que se tenha distinguido pelo conjunto da sua obra, pelos livros que escreveu, pelos temas que abordou, pela qualidade e estilo da sua escrita.

E foi dentro deste contexto, suponho que o Nobel tem vindo a ser atribuído entre outros, a escritores como Knut Hansum (1920), a Thomas Mann (1929), Hermann Hess (1946), a William Faulkner (1949) e, mais recentemente, a Saul Bellow (1976), a Toni Morrison (1993), J.M, Coetze (2003) e Mário Vargas Llosa (2010) ….

E foi por ser este o meu entendimento sobre a “natureza” do Nobel da Literatura que me surpreendeu à atribuição do mesmo a Bob Dylan. Não obstante quero deixar bem claro que não está em causa a beleza das suas canções que, alias, foram – e continuam a ser - particularmente importantes para a geração a que pertence.

A sua luta contra as injustiças, o seu apelo à liberdade, o seu lirismo, a sua humanidade, que tão bem comunicou através dos seus poemas, da sua música, da sua voz são inesquecíveis e marcantes.

São sem dúvida Arte! Como aliás o são também os poemas e as músicas de Brel, Chico Buarque, Leonard Cohen… Todas estas poesias, estas canções, são indubitavelmente, manifestações de Arte, nem mais menos importantes de que uma obra literária. São apenas coisas diversas…

*advogada

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