Opinião

O Lado Lunar | Um povo de suicidas

15 mai 2026 21:30

Nos meros 42 km da ida e volta que ligam Alcobaça à Batalha, a minha vida esteve em perigo por duas vezes

Para Miguel de Unamuno (filósofo Basco do séc. XIX) Portugal era um mistério de melancolia tal, que levou figuras como o seu amigo Manuel Laranjeira, Antero de Quental, Camilo Castelo Branco, Mário de Sá-Carneiro ou Soares dos Reis ao suicídio.

Se Miguel de Unamuno ainda fosse vivo, levava-o a dar um passeio de carro, para que ele atualizasse a sua obra e visse onde realmente está o impulso suicida (e homicida) do nosso país e seus habitantes: nas estradas de Portugal.

No passado Sábado, dia 9 de Maio, fui trovar com os meus queridos The Wandering Bard, ao Mosteiro da Batalha. O repertório eram canções de escárnio e mal dizer. Libertador no mínimo.

Nos meros 42 km da ida e volta que ligam Alcobaça à Batalha, a minha vida esteve em perigo por duas vezes.

A primeira, ainda de dia, quando sinalizei com o pisca esquerdo a ultrapassagem ao veiculo que seguia à minha frente, apenas para ter um BMW grande a travar a fundo atrás de mim porque vindo, nem sei de onde, e em excesso de velocidade me ia batendo, tendo eu de recolher, perigosamente, atrás do carro à minha frente e deixar ir o homicida-suicida quase bater noutro carro em contramão e depois virar para uma saída local, já quase em duas rodas; outra à vinda, já de noite, mesma estrada onde um carro branco (também BMW, creio eu) se apresenta à minha frente, em ultrapassagem proibida sobre risco contínuo, e eu lá me desviei para a berma com a sorte de haver algum espaço, que, mais à frente, já não teria.

Faço uma nota:

- se virem isto publicado online nas redes dos jornais, contem os vossos episódios na estrada.

Isto porquê?

Porque através dos vossos testemunhos e dos 42 min Alcobaça-Batalha-Alcobaça, penso que poderemos concluir que a condução criminosa dos Portugueses é a regra e não, como se apraz dizer - porque fica bem -, a exceção.

A recente operação Páscoa e os seus 20 mortos, mais de 50 feridos graves e cerca de 2.000 acidentes são um índice da capacidade destrutiva dos Portugueses que não tem tendência para amenizar, muito pelo contrário. Segundo o ACP as causas mais comuns dos “acidentes” são: excesso de velocidade, condução sob efeito de álcool, uso do telemóvel ao volante, fadiga e condução agressiva. Tudo erro humano, se tivermos em conta o contexto suicida-homicida do artigo.

Considerando pelo MAI - e bem - estes números como inaceitáveis, pretende o Ministério reforçar as medidas punitivas. Sendo esta nova repressão mais que justificada penso que se lhe deveria acrescentar, com urgência, uma ótica de prevenção e de trabalho psicológico atendendo ao comportamento maníaco dos portugueses ao volante que configura, na minha leiga opinião, doença mental.

No fórum TSF sobre este assunto (a 15 de Abril) muitos participantes tiveram, quanto a mim, a coragem de identificarem o verdadeiro problema: a mentalidade desordeira do Português ao volante e todos temos, mea culpa, essa desordem, evidente no fato em como constantemente nos desresponsabilizamos e desculpamos comportamentos inacreditáveis ao volante, tornando esta questão, numa questão de sorte ou de morte.

Ainda hoje, ao levar alguns monos de casa para o lixo para recolha por uma associação de beneficência, carregado como ia com os ferros de um beliche que pertenceu ao meu filho, mesmo assim, uma senhora num Mercedes branco decidiu-me passar à frente, quase a ferro, na passadeira. Quando lhe gritei deu-me aquele olhar odioso que todos bem conhecemos.

Há uma guerra civil automóvel em Portugal.

Precisamos urgentemente de um cessar-fogo.