Opinião

O lado lunar | Um dia mau

12 jun 2026 21:30

Respondo-lhe com vontade de emigrar de vez ou de ir para o campo onde te põem o saco do pão todas as manhãs atado à maçaneta da porta

Saio pela fresquinha, apesar da onda de calor, para comprar pão, ovos e queijo fresco. Pequeno-almoço. A refeição onde consigo por a leitura em dia, sem garfo e faca. Tento estacionar em linha mas um senhor, já de idade, resolveu ocupar 4 lugares de uma só vez. Tento o meu melhor para estacionar onde o estacionamento dele me permite, mas a traseira do meu carro fica, que remédio, perto da porta dele. No entanto, ele só tem de recuar ou endireitar um pouco mas não. Prefere meter a cabeça fora do carro e gritar-me: “Ouça lá, tem carta de condução?” Strike one.

Lá compro o pão e as coisas e dirijo-me a casa. Um senhor, já de idade, está estacionado à frente da garagem. Não consigo entrar. Tenho de lhe buzinar, que remédio, uma, duas, três vezes. Nada. Lá meto a cabeça fora do carro e peço, gentilmente, que é para não assustar: “Desculpa, pode chegar um bocadinho à frente?”. Lá chega, com má vontade, parece-me, com a condutora atrás de mim já a ferrar-me a buzina nos ouvidos na pressa de não parar na passadeira mesmo em frente. Strike two.

Já em casa, TSF, notícias: PSD e Chega acordam prestação social única, simplificação de processos ou mais do mesmo na restrição de apoios, quem sabe; Carlos Moedas pondera acabar com a redução de 50% nas refeições escolares em Lisboa, depois do chic-nic, a realidade de quem não tem dinheiro para alimentar os filhos. Strike three.

Na fila do pão, uma senhora muito simpática ao ver as minhas trombas matinais de quem já levou na cabeça de um velhote, diz-me: “Não se preocupe, se calhar o senhor do carro está só a ter um dia mau.”

“Para não variar.” - respondo-lhe com vontade de emigrar de vez ou de ir para o campo onde te põem o saco do pão todas as manhãs atado à maçaneta da porta.