Opinião

O feio

22 mai 2017 00:00
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Amélia do Vale

O animal que há em mim acordou no sábado passado algo aborrecido!

Sabia que a minha ida a um casamento marcado para esse dia, numa cidade distante de Leiria, me privaria, em tempo real, de me emocionar com o jogo do Benfica, com a interpretação do Salvador Sobral e até com o meu querido Papa Francisco em Fátima.

Por isso e quase como vingança, decidi que iria estar naquele casamento como se ele fosse um qualquer espetáculo e eu uma qualquer sua espetadora!

Mas chegada lá o sentimento falou mais alto do que a emoção e claro, dei comigo a abraçar com afeto o meu amigo, a querer estar com ele ali, naquele momento tão significativo para ele.

Porém e apesar de já completamente livre da animalidade das minhas emoções, o que me aconteceu foi incrível: a certa altura dei comigo a ter uma experiência estética. Sim, (eu senti) uma experiência estética!

Sem associar, de forma nenhuma, o feio ao mau, os modos e as vestimentas usadas por um grupo de convidados, causaram-me um tal espanto e provocaram-me tantas sensações e (des)afetos que sem querer abandonei a mera visão pragmática daquela “tribo” para a percecionar como um todo muito incómodo, de tão feio!

De facto, associando eu o belo a manifestações ordenadas de sons, cores, simetrias e proporções, naquele “quadro”, aquelas figuras eram todo o seu contrário.

Eram, aqueles corpos coloridos e ruidosos em movimento, deteriorações e desorganizações de formas que, de tão desequilibradas, me apetecia ir compor, como quando, rapidamente, acorro a endireitar um quadro que me incomoda por estar torto numa parede.

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*Professora