Opinião

O erro de capitalizar a Kristin

12 out 2026 21:30

Leiria continua a não usar a sua política fiscal como instrumento de atratividade

Mais de nove meses depois da tempestade Kristin, o município mostrou que se soube reerguer e que tem competências técnicas e políticas para a emergência e resiliência. O balanço pós-Kristin tem sido positivo e há a intenção de Leiria apresentar-se como uma região-piloto para uma estratégia de resiliência territorial ao nível nacional.

A proposta pode ser um fator não avançado de diferenciação competitiva, mas, tal como aconteceu com a candidatura a Capital Europeia da Cultura para 2027, Leiria não deve distanciar-se do seu ADN – a economia de natureza empresarial. Até 2050, cerca de 70% da população mundial vai residir em áreas urbanas. A crescente tendência para a urbanização impõe desafios estruturais às cidades: economia, ambiente, mobilidade, habitação, segurança e coesão social.

As soluções para os problemas dos territórios passarão, cada vez mais, pela descentralização das decisões. E um território, para ser eficiente e eficaz, tem de ser atrativo. E é nesse domínio que Leiria não deve perder o seu foco.

Na Região Centro, Leiria compete diretamente com Aveiro e Coimbra. São cidades com universidades, com ecossistemas de inovação e empreendedorismo, vão ter uma futura estação da linha de alta velocidade e fazem parte dos Nós Urbanos da Rede Transeuropeia de Transportes.

Os recursos da economia são finitos e os territórios competem para os captar, sobretudo, o trabalho e o capital. E há alguns indicadores que não podemos ignorar, tais como: o ganho médio dos trabalhadores por conta de outrem em Leiria é de 1450€/mês, está abaixo da média nacional e cerca de 170€ a menos do que em Aveiro (fonte: Pordata).

Entre agosto de 2025 e 2026, Aveiro criou 282 novos postos de trabalho, Coimbra criou 228 e Leiria criou apenas 93 (fonte: IEFP). O poder de compra per capita de Leiria é cerca de 15 pontos percentuais abaixo de Coimbra e Aveiro (fonte: CCDRC). A densidade de empresas (nº de empresas p/Km2): Coimbra com 73,7, Aveiro com 64 e Leiria com apenas 37,1 (fonte: CCDRC). Os números não enganam.

O maior desafio de Leiria é aumentar a sua competitividade territorial na Região Centro e encetar um caminho de convergência com Aveiro e Coimbra. Caso contrário, pode ter um destino de esvaziamento e empobrecimento. Por proposta política, o município recusou, uma vez mais, a descida da taxa variável do IRS e da derrama. Ou seja, Leiria continua a não usar a sua política fiscal como instrumento de atratividade.

Leiria continua a agir como se os recursos da economia fossem infinitos e a atratividade do território uma força inercial. Leiria já mostrou, e bem! que conseguiu reerguer-se da Kristin. Criou-se um capital político e um know-how adquirido. Mas isso não é um fator avançado de competitividade. A insistência na capitalização da Kristin pode ser um erro e um atraso.