Editorial

O drama dos animais abandonados

6 mai 2021 10:03

Dizem que é muito bom ter um animal de companhia

Cão ou gato, canário ou papagaio, a espécie nunca foi problema.

No período de regresso das ex-colónias, havia até quem se passeasse com um macaco aos ombros.

É claro que o pobre do símio devia estranhar a floresta de alvenaria, a cor da pele dos humanos, o não poder colher a banana directamente da bananeira.

Mas isso era lá com ele. Na verdade, o importante era o ‘dono’ sentir que ele era o seu animal de ‘estimação’.

Com a actual pandemia, reavivou-se o interesse pelos animais. Assistiu-se-se à desfaçatez da adopção de canídeos para justificar um passeio ‘higiénico’, atingiu-se o egoísmo de acolher um bichano apenas para atenuar o tédio ou acalmar a solidão. E agora?

Quando acabar o teletrabalho, quando regressarem os compromissos sociais, quando forem retomados os convívios familiares, qual será o destino de muitos destes lulus e tarecos?

Esta semana, damos a conhecer a realidade do Centro de Recolha Oficial de Animais de Porto de Mós, que atingiu a lotação máxima, seis meses após ter sido inaugurado.

Já antes, tínhamos noticiado que, em Ourém, está em curso a construção de um novo canil, orçado em mais de 400 mil euros, e que em Leiria foi anunciado o estudo prévio para a construção de um moderno espaço, com um custo previsto de um milhão de euros.

Quer isto dizer, que mesmo antes desta pandemia, o abandono de animais já era, por si só, uma epidemia. E agora, às autarquias, não resta outra alternativa senão construir infraestruturas maiores e mais espaçosas, para acolher um número crescente de animais abandonados.

Analisando a questão de forma fria e numérica, e fazendo fé nas estimativas de um grupo de especialistas na matéria, a médio prazo, Portugal poderá ter que criar abrigos para cerca de 240 mil cães e gatos abandonados.

O drama dos animais
abandonadosSe cada um destes animais custar uma média de 300 euros por ano, em alimentação e saúde, significa que é preciso investir um total de 72 milhões de euros.

Dá que pensar, não? Ainda assim, continuam a proliferar histórias de pessoas interessadas em adoptar um cão ou um gato, mas apenas se forem bebés, tiverem pedigree e se consigam adaptar a uma vida sedentária, num qualquer apartamento ou varanda.

Se assim não for, não hesitam em devolvê-los aos centros de acolhimento ou abandoná-los na via pública.

Isto, independentemente de, depois, se sentirem no direito de opinarem e destilarem veneno nas redes sociais, sempre que é identificado um novo animal errante.

É caso para dizer: tenham dó.

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