Opinião

O corpo que dança

8 fev 2018 00:00
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Clara Leão, professora de dança

O corpo conta o grupo a que pertencemos, conta a forma como eventualmente precisamos de nos distanciar dele, e conta o grau de resistência com que nos conseguimos manter na luta pelo lugar onde precisamos.

O nosso corpo denuncia de forma silenciosa o modo como nos relacionamos com os outros. Com o mundo.

“Construído” por nós com uma imagem que, achamos, nos revela tal como somos, ou que nos ajuda a passar despercebidos, ou que pretende fazer-nos parecer a pessoa que na realidade não somos, ele é afinal a revelação das nossas ideias e medos, das nossas frustrações e anseios, das nossas expectativas, vontades, crenças e recusas, dizendo por nós a forma como lidamos com o que nos rodeia e como, literalmente, incorporamos o que nos toca, daquilo que nos cerca.

O corpo conta o grupo a que pertencemos, conta a forma como eventualmente precisamos de nos distanciar dele, e conta o grau de resistência com que nos conseguimos manter na luta pelo lugar onde precisamos, ou queremos estar.

Na forma como se move, como se cobre, como espera, ou como encontra, o corpo traduz o tempo e o modo em que estamos, definindo-nos; e ao sermos olhados pelo outro, deixamos de ser apenas indivíduos, para nos tornarmos sujeitos, por acção desse olhar.

E nessa relação a dois, a alteridade – a possibilidade de sermos o outro para alguém e vice-versa - permite a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, entendendo-o, e de, a partir desse lugar, por semelhança ou contraste, nos vermos.

Surgindo como forma primeira de comunicar, o corpo em dança pode saber traduzir o que quem o observa sente, ou o que então descobre ser possível sentir, trazendo-lhe o espanto da descoberta, ou o conforto do entendimento, ou a gratidão da cumplicidade, ou mesmo algum desconforto por uma íntima e secreta exposição.

Num curto espaço de tempo tive a oportunidade de dar a ver uma belíssima peça de Pina Bausch, “Café Muller”, a dois muito diferentes grupos: um de alunos de mestrado, outro de reclusos.

Aos dois, pese embora a diferença na facilidade de comunicar e de extrapolar do que a peça fazia sentir e pensar, os corpos dos bailarinos falaram de abandono, de solidão, de desencontro, de necessidade de protecção e de tristeza.

E é observando o que dizem os corpos de quem olha outros corpos que dançam, que me surge a ideia do encontro real, da comunicação honesta, e da alteridade transformadora.

*Professora de dança