Opinião

O corpo decide sozinho

29 abr 2026 09:35

Quando anunciaram o red velvet, há um momento em que ninguém sabe se é para servir a sobremesa ou prestar vassalagem à irmã do noivo

Não queria parecer descrente no amor. Acho que não sou. Mas acho a maioria dos casamentos esquisitos. Continuo a ir, que é o mínimo exigido para não perder acesso a pessoas que um dia podem precisar de mim para mudar móveis. Vou, ainda assim, sempre à espera de ter de controlar a minha tendência para revirar os olhos. Talvez o problema não seja o casamento em si, que até acho bonito, mas alguém: um tio bêbado, uma mãe que ainda segura o cordão umbilical, um padre que não se lembra se vai fazer um casamento ou a missa do sétimo dia. Clássicos. Com esses conto. Mas com a irmã do noivo, não contava.

Até começou bem. Trouxe um vídeo com fotografias de infância, música dramática, o destino a acontecer retroactivamente. Já vimos isto antes, no catálogo de casamentos é o número 32, salvo erro. Durante o vídeo reparei numa coisa com peso, ajustada à anca da irmã: um calhamaço de folhas. Ainda pensei que fosse para distribuir, como na escola. O professor entrega à primeira pessoa, cada um tira uma folha, aquilo vai andando e, no fim, há sempre um último que fica com o resto, sem perceber nada mas com a sensação de ter participado.

Afinal, não era material para distribuição. Era tudo para ela. Um volume que não augurava nada de bom.

Se eu fosse esperta, tinha saído aí.

O vídeo acaba, há palmas e aquele alívio de quem acha que já pode voltar ao prato de peixe. Mas ela fica. E começa.

Começou pela criação do mundo. O que, convenhamos, é ambicioso. Sete dias. Até aqui, tudo bem. Sete é um número manejável. O problema é quando o sete deixa de ser sete e passa a ser uma espécie de conceito. Havia sete dias, mas também sete fases, sete sinais, sete coisas que já não eram sete mas insistiam em sê-lo.

A certa altura diz que assistiu ao início daquela criação que estávamos ali todos a celebrar. E a frase «sim, eu estava lá» sai-lhe da boca. Foi aqui que percebi: aquilo foi escrito, teve versões e, em princípio, foi escrito por alguém ainda sóbrio.

O microfone tem este efeito: dá uma estrutura impressionante a pensamentos que talvez beneficiassem de permanecer informais. E tudo isto vindo de alguém que, visualmente, estava em concorrência directa com o bolo. Vermelho, várias camadas, volume. Quando anunciaram o red velvet, há um momento em que ninguém sabe se é para servir a sobremesa ou prestar vassalagem à irmã do noivo.

A meio, aproxima-se do irmão e encosta a testa à dele. Ainda tento dar contexto: pode ser emoção, simbólico, rápido. Não é. Aquilo fica. E começa a ultrapassar o tempo aceitável de proximidade facial entre adultos. Começo a fazer contas: mais cinco segundos ainda é gesto, mais dez já é ligação, mais um bocado e aquilo fixa para sempre. Foi aqui que comecei, contra toda a lógica, a acreditar que iam colar, que íamos sair dali com dois adultos funcionalmente siameses e uma série de problemas práticos imediatos, a lua-de-mel, por exemplo. Não aconteceu, felizmente, mas também não houve garantias suficientes de que não pudesse acontecer.

O discurso continua: sete dias, sete não sei quê, sete voltas à mesma ideia, até aquilo perder oxigénio. Deixo de ouvir. Sinto a explosão de riso a formar-se e tento gerir o dano. Primeiro, conter, respirar fundo, olhar para um ponto fixo, engolir. Depois, o corpo decide sozinho. Escondo-me atrás de um pilar; toda a gente atrás de mim vê, mas pelo menos escondo-me da irmã do noivo, que, por esta altura, começo a achar minimamente instável e potencialmente perigosa.

Faço o melhor que posso com o meu próprio sistema nervoso. Falho.

O riso, abafado há demasiado tempo, sai descontrolado pela garganta, num som de sanfona. Olhos a arder, cara a desconfigurar, o esforço desesperado para que as lágrimas pareçam emoção em vez de puro gozo perante o ridículo.

No fim, as palmas são rápidas. Não celebram. Encerram. Ela senta-se com um ar tranquilo, como quem cumpriu uma tarefa divina.

O casamento continua. E eu passo a noite atenta. Cada vez que ela vai à mesa dos doces, até tenho medo de pestanejar. Não por medo que a confundam com o red velvet, mas pelo serviço de cutelaria lá presente. Ciente de que ela precisaria de menos de sete segundos para o usar contra mim