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Uma exposição que existe independentemente do facto de existir, é um convite a olhar as mesmas coisas sob um novo olhar
Uma das exposições mais interessantes que eu vi chama-se Art x Gender. Foi há pouco tempo em Bruxelas, no Museu Old Masters e no Museu Magritte que fica colado ao primeiro.
Vou tentar explicar-vos como funciona. A exposição reune 70 obras espalhadas pelos dois museus sendo que a maior parte das obras fazem parte da exposição permanente e cerca de 30 das reservas.
A não ser uma instalação de Olga Morano (1935-1999) - “Délie. Machine delirante et désirée par ses deux amants - Mode d’ emploi” que ocupava um átrio, todas as outras obras vivem nas mesmas paredes onde estão habitualmente. Uma pequena etiqueta identifica os quadros que pertencem em simultâneo às duas exposições e uma pequena brochura permite seguir o fio de Art x Gender no seu percurso predeterminado. Sem elas a exposição não existe realmente.
O que quero sublinhar é que nenhuma das obras da exposição era per si uma novidade, todas elas vistas e revistas pelos visitantes dos museus a seu belo prazer. É aqui que, para mim, Art x Gender se torna verdadeiramente inesquecível ao propor novos percursos, novas relações e uma outra forma de ver aquilo que já tantas vezes se viu sem alterar em nada o que lá está.
Jogos de combinação entre obras de arte de materiais, técnicas, estilos e épocas distintas não sendo de todo vulgares, existem há muito tempo - a última de que tenho notícia ainda está no Museu Unterlinden em Colmar e são suportadas por um aparato teórico que se espraia entre as “afinidades electivas” de Goethe, o “Mnemosyne Atlas” de Aby Warburg obrigatoriamente ou o “Musée imaginaire” de André Malraux.
Art x Gender ainda que podendo invocar os mesmos alicerces, é outra coisa. É uma exposição que existe independentemente do facto de existir, é um convite a olhar as mesmas coisas sob um novo olhar. Só isso. Ver o mesmo como se fosse diferente e observar como esse novo olhar altera as coisas e como todas as coisas podem ser novidades.
Com ligeiras alterações conceptuais e discursivas aplica-se a quase tudo, pessoas, organizações e cidades. Foi em Leiria e no seu território que pensei o tempo todo.