Opinião

Nós?... e os outros?

8 nov 2026 21:30

Dada a evolução das manifestações, o problema já se põe, então, em termos de grupo, sem que, obviamente, cada cidadão seja irresponsabilizado das ações desse grupo.

Meu Caro Zé

Há cerca de um mês escrevi-te a propósito de uma proposta de lei do Governo relativa à habitação.

Logo aí manifestei o meu assombro por certos pontos considerando-os iníquos ou mesmo de racionalidade duvidosa.

Acrescentei que não devíamos omitir o papel dos “anónimos fundos imobiliários”.

Lembro isto para que fique claro que não tenho qualquer dúvida sobre a legitimidade e a utilidade potencial das manifestações que têm gerado grande confusão neste nosso País.

Essa confusão tem sido inflamada pelo comportamento das pessoas e grupos, em particular os jornalistas da TV, contribuído mais para exaltar ânimos do que para discutir o problema que já deixou de ser apenas a habitação.

Todos reclamam, e bem (Art.45ª da CRP), o direito de “os cidadãos se reunirem pacificamente e sem armas, mesmo em lugares abertos ao público, sem necessidade de qualquer autorização”, bem como o direito de manifestação.

Repare-se que é um direito de todos e de cada um dos cidadãos que, ao reunirem-se, criam um grupo formal ou informal, com suporte no nº1 do Artigo 46º (que é essencial): “Os cidadãos têm o direito de, livremente e sem dependência de qualquer autorização, constituir associações, desde que estas não se destinem a promover a violência e os respetivos fins não sejam contrários à lei penal” a que se seguem outros pontos que as caraterizam e delimitam.

Dada a evolução das manifestações, o problema já se põe, então, em termos de grupo, sem que, obviamente, cada cidadão seja irresponsabilizado das ações desse grupo.

Olhando para o título da minha última missiva, fui interpelado por uma frase de António Lobo Antunes, no seu livro Crónicas, que, a certa altura, se interroga: “Quando me pergunto o que fiz da minha vida suponho que devia antes perguntar-me o que fiz da vida dos outros”, já não numa relação de um para outro, mas de um para outros.

Só que no contexto da aplicação dos direitos, nestes acontecimentos, levanta-se já o problema da relação entre grupos.

Simone Weil em 1943, no seu livro inacabado O Enraizamento, escreveu que nos grupos “até a amizade é um grande perigo e a inteligência fica derrotada a partir do momento em que a expressão do pensamento é precedida, explícita ou implicitamente, pela palavra “nós”! “Nós” e “Os Outros” é o problema a ultrapassar, interrogandome se não será altura de não nos culparmos uns aos outros por aquilo de que, afinal, todos somos responsáveis, buscando antes o encontro.

Até sempre.