Opinião
Música | Modern love
Algo se atravessou no caminho, uma epifania, uma luz, um clique, uma voz, uma story, uma palavra, um som, um sopro, um zum zum, mas algo me alertou que era meu dever ouvir La Symphonie des éclairs, não uma, não duas, não três, mas muitas vezes
Zaho Mélusine Le Moniès de Sagazan, eis o nome completo da jovem cantora e compositora francesa, mais conhecida por Zaho de Sagazan. Só por este nome, podíamos ficar logo em sentido, mas ao ouvirmos a voz de Zaho percebemos que algo de especial e muito bom se está a passar com a nova chanson française.
Muitos de nós ouvimos falar de Zaho de Sagazan pela primeira vez em 2024, a propósito daquela atuação sublime na cerimónia de abertura do Festival de Cannes, onde interpretou “Modern Love”, numa homenagem à presidente do júri, Greta Gerwig (a canção de David Bowie está ligada a uma das cenas mais célebres do filme Frances Ha (2012), protagonizado por Gerwig). O vídeo da performance ganhou uma velocidade tal por essa internet afora, que aos dias de hoje já foi visto mais de 1 milhão e 500 mil vezes, só no Youtube. O que boa parte do mundo musical não sabia, tirando os franceses e poucos mais, é que Zaho já tinha gravado em 2023 La Symphonie des éclairs, um disco muito aclamado pela crítica e público lá na França, catapultando assim a artista para o estrelato.
Naquela maravilha em Cannes, tudo é inesquecível: a voz, principalmente aquela canção na voz de Zaho, os arranjos, a coreografia, a emoção de Greta Gerwig a ver aquele espetáculo. Agora, a pergunta que se impõe: mas porquê escrever sobre Zaho de Sagazan só agora? Porque só agora ouvi o disco La Symphonie des éclairs. Pois é. Isto às vezes demora um bocadinho a descobrir as coisas boas da vida. Algo se atravessou no caminho, uma epifania, uma luz, um clique, uma voz, uma story, uma palavra, um som, um sopro, um zum zum, mas algo me alertou que era meu dever ouvir La Symphonie des éclairs, não uma, não duas, não três, mas muitas vezes.
Lá atrás escrevi chanson française e não me parece muito descabido incluir Zaho de Sagazan nesse grande caldeirão, apesar das incursões da artista pela synth-pop e eletrónica. E há um nome, talvez o maior de todos, que nos vem logo à cabeça ao ouvir algumas das faixas: Jacques Brel. Zaho vai buscar muita inspiração a Brel, à sua música, ao seu teatro - La Symphonie des éclairs, o coração do disco, “Tristesse”, "Dis-moi que tu m'aimes" ou "Les Dormantes", são bons exemplos de músicas onde paira o espírito de Jacques Brel.
David Bowie, um artista sempre à frente de todos os outros, estava muito atento aos novos músicos e às vezes dizia que este ou aquela iam dar muito que falar. Assim foi com a cantora neozelandesa Lorde e assim teria sido com Zaho de Sagazan.