Opinião

Música | Fisher, o arquitecto

14 ago 2026 08:22

Um grande palco não existe para distrair ou ser fotografado. Existe para nos ajudar a ouvir

Já quase todos estivemos num concerto num estádio e há um momento que se repete quase sempre. As luzes apagam-se e, durante alguns segundos, milhares de pessoas deixam de olhar umas para as outras para passarem todas a olhar para o mesmo sítio.

Mas, antes da música começar, já algo nos prendeu a atenção. O palco enorme, os ecrãs gigantes, as torres, as luzes, uma estrutura que parece ter aterrado ali durante a noite. E aceitamos tudo aquilo como se sempre tivesse existido.

Mas não. Durante muito tempo, um concerto num estádio era um compromisso. Os músicos eram pequenos, quem estava mais longe mal distinguia quem estava em palco e boa parte da experiência perdia-se na distância. A música crescera mais depressa do que os espaços onde era tocada.

Felizmente, uma série de visionários resolveu esse problema.

Entretanto, aconteceu outra coisa curiosa. Grande parte do público passou a desperdiçar esse privilégio, gravando quase tudo com o telemóvel. Publica um excerto, raramente o volta a ver.

Talvez gravemos porque desconfiamos da memória. Ou porque queremos mostrar que estivemos ali. Mas uma experiência não se vive da mesma forma quando estamos ocupados (e distraídos) a registá-la.

Uma catedral não foi desenhada para ser vista através de um ecrã. Uma pintura não foi pensada para caber no tamanho de um polegar. E um concerto só é verdadeiramente grande quando é vivido por inteiro.

Os palcos foram reinventados para serem sentidos com os olhos, os ouvidos, o corpo. Para fazermos parte da escala, da luz e da força do som.

Talvez por isso o último concerto de Bob Dylan no Campo Pequeno me tenha parecido tão singular. À entrada pediram-nos os telemóveis. Durante alguns minutos senti que tinha voltado duas ou três décadas atrás. Um palco elegante. Sem ecrãs. Sem distrações. Apenas músicos e uma plateia em perfeita comunhão.

Depois percebi que não tínhamos recuado no tempo. Estávamos, simplesmente, focados no essencial.

Mas um grande palco não existe para distrair ou ser fotografado. Existe para nos ajudar a ouvir.

Foi precisamente isso que o arquiteto inglês Mark Fisher passou grande parte da vida a defender. Ainda estudante, começou a interessar-se pela arquitetura efémera e organizou concertos na faculdade, chegando a convidar uns então desconhecidos Pink Floyd.

Anos mais tarde, seriam precisamente os Pink Floyd, seguidos pelos Rolling Stones, U2, Metallica, Muse e tantos outros, a dar-lhe a oportunidade de reinventar os palcos de estádio.

O paradoxo de Fisher era simples: quanto mais espetacular era o palco, menos queria que falássemos dele. O seu trabalho não consistia em roubar protagonismo à música, mas em servi-la.

Criava espaços onde dezenas de milhares de pessoas esqueciam, durante duas horas, a arquitetura, a engenharia e a tecnologia que tinham diante dos olhos para mergulharem apenas nas canções.

Num concerto, a melhor arquitetura, como a melhor produção, sonoplastia ou iluminação, não é a que pede aplausos para si. É a que potencia os protagonistas.