Opinião

Música | As Janelas

27 mar 2020 21:00

Reconheço a nobreza de pessoas que não são afectadas por incidentes insólitos e fazem o seu trabalho com a diligência habitual em quaisquer circunstâncias.

A inveja por quem tem esta qualidade, que a psicologia deprecia com a expressão “compulsão obsessiva,” levou-me a preparar umas linhas sobre a maturidade e o humor de Have We Met, o disco novo dos Destroyer.

Abandonei-as a grande custo para tentar articular duas ou três coisas que me ocorreram sobre vídeos de pessoas que cantam à janela.

Embora todos estes vídeos demonstrem a ânsia por contacto social, parece haver pelo menos três tipos distintos.

Há os de cantores de ópera a entoarem árias ou de músicos a tocarem diversos instrumentos; estes mostram actos de generosidade e ao mesmo tempo, suponho, uma maneira de manter a sanidade perante as restrições a que estamos sujeitos.

Abençoados são os seus vizinhos! Os do segundo tipo são os lúdicos, em que vizinhos organizam-se para cantar refrões e dançar coreografias de canções famosas ou, noutra modalidade, em que viram as colunas para a rua e não interessa o que toca.

O aspecto lúdico destes casos perde-se muitas vezes: que pior pode haver do que vizinhos que ouvem música má a altos berros?

É fácil compreender a tentativa de estabelecer relações com outras pessoas através de actos de generosidade ou pela esperança de que estranhos partilhem os nossos gostos: em ambos os casos as canções servem de ponte para o contacto social.

Não deixaria de agradecer um acto de partilha generosa nem deixaria de me comover se ouvisse os vizinhos cantar Everyday Is Like Sunday, não só por ser apropriada ao que estamos a passar, mas sobretudo por ser uma canção com a qual cresci e que é importante para mim.

Mas as relações que reconhecem numa canção uma existência exigem a fineza que a mera convivência comunitária não autoriza; por isso são emocionantes os vídeos do terceiro tipo, em que estranhos cantam o que só pode ser cantado naquele local, acompanhados por vozes que se juntam fora de tempo: nessas canções identificamos a vida de todos os dias que só pode ser vivida por aquelas pessoas.

Uma canção popular de Siena ou a intratável Porto Sentido, de Rui Veloso, entoada num bairro da Invicta, ganham uma relevância nunca antes pressentida.

Durante este confinamento tentaremos mitigar a solidão estabelecendo os contactos possíveis com quem constitui, no sentido prático, a nossa comunidade (apesar de tudo continuamos humanos).

Não há por isso nenhum conforto especial no gesto saloio de colocar uma bandeira à janela e fingir que isso nos une; precisamos de algo mais provinciano, que não sendo desta rua específica, esteja circunscrito a umas travessas e becos já calcorreados.

Tenho por vizinhas algumas das árvores que resistem nesta cidade e, quando me sento na varanda a ler, não me sinto sozinho; mas também não desprezaria uma canção que fosse só deste lugar, minha e de umas quantas almas aqui à volta, tão isoladas quanto desafinadas.

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